História do Sicredi se confunde com a origem do cooperativismo de crédito no país, iniciado em 1902 no Rio Grande do Sul
Por Rogério Cabral
O cooperativismo é, há mais de um século, um dos pilares do desenvolvimento econômico e social do Brasil. Baseado em valores como união, solidariedade e prosperidade compartilhada, o movimento nasceu da necessidade de comunidades encontrarem soluções coletivas para seus desafios financeiros, produtivos e sociais. No centro dessa trajetória está o Sicredi, cuja história se confunde com o próprio surgimento do cooperativismo de crédito no país.
As raízes do cooperativismo no Brasil
As primeiras sementes do cooperativismo brasileiro foram lançadas no final do século XIX, em um momento de grandes transformações políticas e econômicas. O país recém saía do período imperial e se abria a novas ideias de organização social e econômica. Foi nesse contexto que, em 1889, surgiu a Cooperativa Econômica dos Funcionários Públicos de Ouro Preto (MG), considerada a primeira cooperativa brasileira.
Inspirado em modelos europeus, especialmente o alemão, que valorizava a educação, a solidariedade e a gestão democrática, o movimento cooperativista começou a se espalhar pelo país, impulsionado pela chegada de imigrantes europeus que acreditavam no poder da cooperação como instrumento de transformação social.
Essas ideias, vindas de experiências bem-sucedidas na Inglaterra e na Alemanha, encontraram no Brasil um terreno fértil, especialmente em comunidades agrícolas e interioranas, que careciam de apoio financeiro e organizacional. Foi nesse cenário que nasceria a primeira cooperativa de crédito da América Latina, marco fundamental na história do cooperativismo nacional.
O nascimento do Sicredi e a revolução financeira no campo

Em 28 de dezembro de 1902, o padre suíço Theodor Amstad fundou, na localidade de Linha Imperial, em Nova Petrópolis (RS), a Caixa Rural de Nova Petrópolis, hoje conhecida como Sicredi Pioneira. Inspirado pelo modelo das caixas rurais alemãs, Amstad tinha um propósito claro: oferecer alternativas financeiras acessíveis e justas para os imigrantes alemães da região, que enfrentavam grandes dificuldades de acesso a serviços bancários.
O modelo cooperativo proposto por Amstad era simples, mas revolucionário. Cada associado era, ao mesmo tempo, dono e cliente da instituição. As decisões eram tomadas coletivamente, e os resultados, distribuídos entre os próprios cooperados ou reinvestidos na comunidade. Assim, o cooperativismo de crédito se tornou uma poderosa ferramenta de inclusão financeira e desenvolvimento local.
“Foi aqui que tudo começou. Vinte pessoas decidiram criar uma instituição financeira que mudaria para sempre a vida da comunidade. O cooperativismo deu liberdade econômica a quem antes não tinha acesso ao crédito, transformando realidades e promovendo prosperidade”, afirmou um dos dirigentes do Sicredi durante recente visita à Praça Padre Amstad, em Nova Petrópolis, hoje reconhecida como capital nacional do cooperativismo.
Expansão e modernização do cooperativismo

A experiência pioneira do padre Amstad inspirou o surgimento de novas cooperativas em outras regiões do país. Com o passar das décadas, o sistema cooperativo se modernizou, ganhando estrutura e solidez.
Em 1992, as cooperativas filiadas à Cocecrer/RS decidiram unificar sua identidade sob a marca Sicredi, reforçando a padronização dos serviços e a força de uma marca nacional. Poucos anos depois, em 1995, o movimento alcançaria outro marco: a criação do Banco Cooperativo Sicredi, o primeiro banco cooperativo privado do Brasil.
Esse passo histórico garantiu às cooperativas mais autonomia e competitividade no sistema financeiro, além de consolidar o modelo cooperativo como alternativa sustentável às instituições bancárias tradicionais.
Hoje, o Sicredi está presente em todos os 26 estados brasileiros, com 102 cooperativas, com mais de 3 mil pontos de atendimentos e mais de 9,5 milhões de associados. São R$ 427 bilhões em ativos, R$ 269 bilhões em carteira de crédito e R$ 46 bilhões em patrimônio, números que reforçam a força e a credibilidade do sistema. Ao todo, mais de 50 mil colaboradores trabalham no Sicredi, levando prosperidade a comunidades de todos os tamanhos.
O cooperativismo como propósito
O propósito do Sicredi é “construir juntos uma sociedade mais próspera”. Mas, para a instituição, prosperidade não é apenas sinônimo de crescimento econômico. É também promover equidade, sustentabilidade e inclusão.

“Enquanto houver pessoas precisando de ajuda ou empresas enfrentando dificuldades, haverá espaço para o cooperativismo”, destacou César Bochi, diretor presidente do Banco Cooperativo Sicredi.
“Prosperidade é sobre crescimento com propósito. Não se trata apenas de PIB ou dinheiro, mas de gerar desenvolvimento equilibrado, oportunidades e bem-estar para todos.”
O Sicredi atua diretamente com produtores rurais, empreendedores, cooperativas de produção e pequenas empresas. Além do crédito, investe em educação financeira, sucessão rural, qualificação profissional e projetos sociais. Parte dos resultados financeiros é reinvestida nas próprias comunidades, fortalecendo a economia regional.
Esse ciclo virtuoso, onde o sucesso do associado é também o sucesso da cooperativa, é o que sustenta o crescimento contínuo do movimento. “A cooperativa só será forte se o associado for forte também”, resume um dos executivos.
A imprensa como aliada do cooperativismo
Ciente de que o conhecimento sobre o cooperativismo ainda é limitado entre muitos brasileiros, o Sicredi realiza anualmente um encontro com jornalistas e formadores de opinião em Nova Petrópolis e na sede de Porto Alegre. O objetivo é simples e essencial: aproximar a imprensa do universo cooperativo e mostrar na prática como esse modelo transforma realidades.
“Em regiões onde há cooperativas, há mais desenvolvimento social e econômico. Ainda assim, o cooperativismo é pouco conhecido. Por isso, pedimos à imprensa que abra espaço para falar sobre o cooperativismo, sobre como ele ajuda pessoas, pequenos negócios e comunidades inteiras a prosperarem”, destacou Bochi.
O encontro também reforça a importância da credibilidade jornalística em tempos de desinformação. “Com a expansão das redes sociais, muitas informações são publicadas sem verificação. O papel da imprensa é essencial para mostrar à sociedade o que o cooperativismo realmente representa — ética, transparência, governança e compromisso com o desenvolvimento coletivo.”
A Praça Padre Amstad: o berço do cooperativismo brasileiro

Durante a imersão no Sul, os jornalistas conhecem a Praça Padre Amstad, em Nova Petrópolis, um símbolo vivo dessa história. O espaço homenageia o fundador do movimento cooperativista no Brasil e mantém viva a lembrança de onde tudo começou.
“A Praça Padre Amstad homenageia o padre Theodor Amstad, que foi o iniciador do movimento cooperativo em 1902. A importância desse local para o cooperativismo, especialmente no segmento de crédito, é ímpar, porque foi aqui que essa história começou — com 20 pessoas criando uma instituição financeira que mudou completamente a comunidade daquela época. Era uma comunidade vulnerável, com várias carências, e o padre Amstad trouxe ideias cooperativas que deram liberdade econômica a essas pessoas”, destacou Paulo Cesar Soares, diretor executivo da Casa Cooperativa durante visita ao local.
Ainda segundo ele, “um grande grupo de pessoas que não tinha acesso a recursos ou conhecimento financeiro passou a ter oportunidades e mudou, para sempre, a própria história e a história do país. Aqui é o berço do cooperativismo no Brasil. A cooperativa Sicredi Pioneira é herdeira dessa história, e o sistema Sicredi é o guardião de todo esse legado. O verdadeiro patrono é o padre Amstad”, lembra Soares.

A fala reforça a importância simbólica do local e da filosofia que nasceu ali: “Costumo dizer que, dentro do sistema cooperativo de crédito, somos uma instituição financeira como qualquer outra em termos de produtos. Mas o que nos diferencia é a alma. E essa alma está aqui. O Sicredi guarda até hoje os valores, a integridade, a equidade e a igualdade que nasceram nesta pequena comunidade e que norteiam todas as nossas ações a nível nacional”, reforça o diretor executivo da Casa Cooperativa.
Legado e futuro

Mais de 120 anos após a fundação da primeira cooperativa de crédito, o Sicredi mantém viva a essência de seu fundador. A Sicredi Pioneira, com 265 mil associados, continua sendo referência nacional e internacional em gestão cooperativa. E o sistema como um todo segue crescendo de forma sustentável, com base em princípios éticos e humanos que resistem ao tempo.
“O Sicredi é mais do que uma instituição financeira. É um movimento de pessoas que acreditam em pessoas. Nosso papel é gerar prosperidade para os associados e para as comunidades onde estamos inseridos. Quanto mais prósperos forem os sócios, mais forte será a sociedade”, afirmou Tiago Schmidt, presidente Sicredi Pioneira.

O cooperativismo brasileiro, que hoje reúne quase 20 milhões de associados, movimenta cerca de 50% do PIB do agronegócio nacional e está presente em todos os setores da economia. É um modelo que, mais do que resistir às crises, inspira uma nova forma de desenvolvimento — participativa, solidária e sustentável.
Como dizia o padre Theodor Amstad, há mais de um século: “Nenhum homem é tão pobre que não tenha algo a oferecer. Nenhum é tão rico que não precise de cooperação.”
E é exatamente essa filosofia que, desde 1902, move o Sicredi e mantém viva a chama do cooperativismo no Brasil.













