Plano dos EUA traz esperança para paz em Gaza — mas vem carregado de incertezas

Bem à sua hiperbólica moda, Donald Trump postou-se ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Neta­nyahu, no que definiu como “um grande dia, um dia maravilhoso, potencialmente um dos mais importantes dias da civilização”, para anunciar, na segunda 29, um acordo que pode levar à “paz eterna no Oriente Médio”. Excessos à parte, o ambicioso projeto de vinte pontos (veja no quadro os principais deles) foi recebido, de modo geral, como uma chance, real, embora longe de garantida, de pôr fim à guerra desencadeada por Israel contra o grupo palestino Hamas, em reação ao ataque surpresa em 7 de outubro de 2023 que resultou no massacre de 1 200 pessoas no lado israelense da fronteira com a Faixa de Gaza. O bombardeio sem trégua já matou mais de 66 000 pessoas e isolou o enclave de 2 milhões de habitantes, disseminando fome e doenças. O plano carece de detalhes e cronogramas, mas explicita com clareza pontos cruciais para as duas partes.

A papelada assegura que o território não será anexado por Israel e que seus habitantes não terão de ir embora — ambições da ala extremista do governo Netanyahu — e, ao mesmo tempo, dá à IDF, as forças de defesa israelenses, carta branca para “terminar o serviço” se a proposta, como outras antes dela, for por água abaixo. Boa parte das providências anunciadas já está na mesa há tempos e foi seguidamente sabotada por Israel e pelo Hamas, conforme seus interesses. As diferenças mais notáveis agora são a reunião de várias sugestões — dos Estados Unidos, de outras potências ocidentais, dos países árabes, de negociadores variados — em um documento único e o timing mais favorável: o Hamas, estrangulado, resume a resistência a atos esporádicos, sem chance de causar maiores estragos, e Israel enfrenta uma intensa campanha mundial de repúdio à matança de civis, com danos expressivos à sua reputação e ameaças de represálias internacionais. Fiando-se nesse cenário, Trump se apresentou como avalista-mor da concórdia. Sempre de olho no Nobel da Paz, claro — não ganhá-lo será “um grande insulto ao nosso país”, observou.

A primeira fase do acordo prevê a libertação, nas 72 horas depois da entrada em vigor do cessar-fogo, de todos os reféns israelenses — tanto os cerca de vinte ainda vivos quanto os corpos dos mortos — mantidos em Gaza há quase dois anos. Sem eles, o Hamas perderia sua única moeda de troca nas negociações atualmente. A contrapartida seria a libertação por Israel de 250 prisioneiros palestinos que cumprem pena de prisão perpétua e de cerca de 1 700 detidos depois do ataque de 7 de outubro. “Aceitar significa, na prática, a morte política do Hamas, a prova de que o grupo chegou ao limite. Esse plano representa um primeiro passo na direção da resolução do conflito”, afirma Luís Winter, professor de direito internacional da PUCPR. Ampliando a pá de cal, uma etapa posterior estabelece o desarmamento do grupo e sua remoção total dos destinos de Gaza.

Nos termos do acordo, a retirada das tropas israelenses será gradual, uma cláusula vaga que certamente causará fissuras, e mesmo depois de concluída Israel seguirá controlando uma “zona tampão” ao longo do perímetro do território “até que ele esteja devidamente protegido do ressurgimento de qualquer ameaça”. O dia a dia ficaria a cargo de um comitê “tecnocrático e apolítico” formado por “palestinos qualificados” e assessores internacionais, sob supervisão de um “Conselho de Paz” presidido por Trump em pessoa e integrado, entre outros, pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, autor de algumas propostas. O mesmo conselho deverá supervisionar a reconstrução do enclave em ruínas, com recursos provenientes sobretudo dos ricos vizinhos árabes e o impulso de um “plano Trump de desenvolvimento econômico” com vagas referências, como era de se esperar, a empreendimentos imobiliários. A linguagem, ao menos, é mais profissional do que na trégua abortada de fevereiro, quando o presidente americano acenou com a construção de uma risível “Riviera do Oriente Médio” no local. Em vez disso, segundo a nova proposta, o enclave estaria sendo controlado pela Autoridade Palestina, órgão que já administra partes da Cisjordânia, mas que seria “totalmente reformado”.

A segurança dentro de Gaza, segundo o plano, ficaria sob a responsabilidade de uma “Força Internacional de Estabilização”, que se encarregaria de treinar uma nova polícia local. A entrada de ajuda humanitária seria liberada e ficaria a cargo de agências da ONU e do Crescente Vermelho, a Cruz Vermelha muçulmana. “Os moradores de Gaza estão desesperados para que a devastação acabe. E o Hamas provavelmente sabe muito bem que o plano de Trump, por mais desfavorável que seja para a organização, é a melhor oferta que vai receber dos Estados Unidos e de Israel”, diz Julie Norman, professora de política e relações internacionais no University College London.

O texto é intencionalmente evasivo no que diz respeito à criação de um Estado palestino, assunto tabu para Israel. “O acordo nem toca nesse tema”, disse Netanyahu. Na verdade, um parágrafo cuidadosamente redigido reconhece a autodeterminação e a criação de um Estado para o povo palestino e sugere que as condições futuras podem abrir caminho nessa direção. Nada muito animador em um momento em que, reagindo à destruição promovida pelo governo israelense em Gaza, França e Reino Unido se uniram aos países — 157 dos 193 representados nas Nações Unidas — que reconhecem a Palestina como país soberano.

O Hamas não havia respondido formalmente à proposta até a quinta-feira 2, e esperava-se que procurasse ganhar tempo exigindo mudanças em alguns pontos. Netanyahu, por sua vez, precisará neutralizar a ferrenha oposição dos partidos religiosos radicais de sua coalizão a qualquer tipo de trégua, encabeçada por dois ministros: o das Finanças, Bezalel Smotrich, que qualificou o acordo de “um retumbante fracasso diplomático” que “terminaria em lágrimas”, e o da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que ameaçou deixar o governo (o que já fez uma vez).

arte Israel

Depois de passar dois anos driblando cessar-fogos para impedir a implosão de sua maioria e a convocação de novas eleições, Netanyahu, sob pressão de Trump e da própria população israelense, pode agora — se o fim da guerra se concretizar — mudar de posição e tentar se reeleger, apresentando-se como o comandante bem-sucedido que “redesenhou o mapa” do Oriente Médio, com vitórias contra o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, além de um ataque direto contra o arqui-inimigo Irã. Altamente mobilizada em prol da libertação dos reféns, com manifestações cotidianas nas ruas, a população parece ter aprovado a proposta, por falta de outra melhor. Na primeira pesquisa sobre o assunto, realizada no dia seguinte ao anúncio, 72% disseram sim ao acordo. “Há um ar de otimismo nas ruas, mesmo sabendo que a chance de paz é pequena”, disse a VEJA o premiado autor israelense David Grossman.

Enquanto se avalia a possibilidade de trégua, as forças israelenses seguem bombardeando a Cidade de Gaza, a maior do enclave, alvo de uma operação de destruição total desde setembro. Milhares de moradores foram forçados a deixar o local e o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que o cerco vai se apertar. “Esta é a última oportunidade para os moradores de Gaza irem para o sul e deixarem os integrantes do Hamas isolados”, disse em comunicado. “Quem ficar será considerado terrorista ou apoiador de terroristas.” A expectativa de um cessar-fogo que interrompa o drama dos palestinos deslocados está no ar, junto com o risco de enorme frustração se Trump não convencer o Hamas a aceitar o acordo e não persuadir a comunidade internacional de que, desta vez, controlará o incontrolável Netanyahu. A previsão para Gaza, neste começo de outono, é de rajadas de esperança, com nuvens carregadas de incerteza.

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2025, edição nº 2964

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