Quem convive com cães e gatos provavelmente já presenciou a situação: o animal termina a refeição, mas continua rondando o comedouro, observa o tutor durante as refeições ou demonstra interesse constante por petiscos.
Embora a interpretação mais comum seja a de que o pet ainda está com fome, especialistas explicam que esse comportamento pode ter diversas causas além da necessidade de se alimentar.
De acordo com a veterinária e gerente de produtos da Pet Nutrition, Bruna Isabel Tanabe, a sensação de saciedade vai muito além do simples ato de encher o estômago.
“A saciedade é um processo fisiológico complexo. Ela envolve sinais enviados pelo trato digestivo, pela presença de nutrientes no organismo e pela comunicação entre hormônios e cérebro. Quando o animal se alimenta, o corpo registra volume, composição da refeição e energia disponível. Esses sinais ajudam a reduzir o impulso por comida. O desafio é que esse mecanismo não funciona de forma isolada: ambiente, rotina e experiências anteriores também influenciam a forma como o animal se comporta diante do alimento”, explica.
Nos cães, o interesse frequente por comida está ligado, em parte, à própria evolução da espécie. Ao longo do tempo, os cachorros desenvolveram a capacidade de aproveitar oportunidades alimentares sempre que surgiam, o que faz com que muitos demonstrem vontade de comer mesmo estando adequadamente nutridos.
Além disso, comportamentos que já foram recompensados com petiscos tendem a se repetir.
Entre os gatos, a relação com a alimentação costuma ser diferente. Os felinos fazem pequenas refeições ao longo do dia e são bastante influenciados pelo ambiente.
Mudanças na rotina, falta de estímulos, ansiedade ou até a simples presença do tutor perto da cozinha podem desencadear pedidos por comida que nem sempre estão relacionados à fome.
Para Bruna, observar o contexto é fundamental antes de aumentar a quantidade de alimento oferecida.
“A fome está relacionada a uma necessidade fisiológica, mas o comportamento de pedir comida pode ter outras origens. O animal pode estar buscando previsibilidade, atenção, estímulo ou simplesmente repetindo algo que aprendeu que funciona. Por isso, antes de aumentar a oferta, é importante observar o contexto em que esse pedido aparece”, afirma.
A avaliação do comportamento ao longo do tempo também ajuda a identificar se existe algum problema. Animais que mantêm peso adequado, disposição e rotina alimentar regular podem apenas estar reproduzindo hábitos aprendidos.
Por outro lado, aumento repentino do apetite, perda de peso, consumo excessivo de água ou alterações comportamentais merecem atenção e devem ser investigados por um médico-veterinário.
Outro fator que influencia essa dinâmica é a organização da rotina. Horários inconsistentes para as refeições e a oferta frequente de pequenos agrados ao longo do dia podem criar uma expectativa constante por comida. Isso não significa que os petiscos devam ser eliminados, mas que seu uso precisa ser planejado.
Uma forma simples de entender o que o animal está tentando comunicar é oferecer outras alternativas de interação. Se ele aceita brincar, passear, receber carinho ou explorar um brinquedo, é possível que a necessidade naquele momento seja estímulo ou companhia, e não alimentação.
Os petiscos, inclusive, podem ser utilizados como ferramentas de enriquecimento ambiental. Escondê-los em brinquedos interativos, utilizá-los em exercícios de treinamento ou distribuí-los de maneira que o animal precise explorar o ambiente torna a experiência mais estimulante e reduz a associação direta entre qualquer pedido e a recompensa imediata.
A especialista lembra ainda que esses produtos devem representar apenas uma pequena parcela da ingestão calórica diária. Em geral, recomenda-se que não ultrapassem cerca de 10% das calorias consumidas pelo animal, sempre com orientação profissional.
“Quando o responsável entende a porção adequada, consegue oferecer petiscos com mais segurança e intenção. Isso permite manter o momento prazeroso, sem deslocar a alimentação principal ou interferir no equilíbrio nutricional. O cuidado está em considerar o petisco dentro da rotina alimentar, e não como algo separado dela”, destaca Bruna.
Entender os sinais emitidos por cães e gatos é um passo importante para evitar excessos e garantir uma relação mais equilibrada com a alimentação.
Afinal, nem todo olhar direcionado ao pote significa fome; muitas vezes, ele pode representar apenas um pedido por atenção, atividade ou companhia.













