“Os pets estão vivendo mais” virou uma frase comum nos últimos anos. Mas, honestamente, nem sempre essa percepção combina com o que muitos veterinários observam no dia a dia e muito menos com a memória afetiva de quem cresceu convivendo com animais décadas atrás.
Eu lembro de cães que viveram quase 20 anos comendo comida simples, circulando pelos quintais, tomando sol e tendo uma rotina menos artificial do que a dos animais atuais.
Os cães da minha época eram criados soltos. Era outra realidade, né! Estou falando da década de 80. Os cães viviam livres, tinham uma rotina mais rústica. A alimentação era baseada em restos de comida, até mesmo dos porcos. Eu vi cães se alimentando de abacate, que hoje é praticamente tratado como veneno, sendo orientado por alguns colegas para que os animais não tenham contato com essa fruta.
Os animais eram expostos a todos os tipos de intempéries. Mesmo assim, eles viviam bastante. No meu convívio e na minha rotina de vida, vi cães chegando aos 17, 18 anos. Eram cães extremamente resistentes.
Hoje, paradoxalmente, temos mais tecnologia, mais exames, mais produtos, mais hospitais veterinários e mais informação. Ao mesmo tempo, também convivemos com um aumento evidente de obesidade, sedentarismo, ansiedade, alergias, doenças inflamatórias e problemas metabólicos em cães e gatos.
Claro que a medicina veterinária evoluiu de forma impressionante. Conseguimos diagnosticar doenças antes invisíveis, tratar melhor a dor, controlar infecções e aumentar a sobrevida de muitos pacientes. Mas talvez exista uma discussão importante que ainda fazemos pouco:
O estilo de vida moderno realmente está favorecendo a saúde dos animais?
Os pets de hoje vivem em apartamentos menores, caminham menos, passam mais tempo sozinhos, dormem pouco e consomem dietas ultraprocessadas desde muito cedo. Em muitos casos, a alimentação deixou de ser apenas nutrição e passou a funcionar também como conveniência industrial e praticidade.
Isso não significa demonizar rações ou romantizar o passado. A própria nutrição veterinária trouxe avanços importantes. Mas talvez seja ingenuidade acreditar que décadas consumindo produtos altamente processados não tenham impacto sobre inflamação crônica, metabolismo, microbiota intestinal e envelhecimento.
Na medicina humana, essa discussão já começou há bastante tempo. Na veterinária, ela ainda engatinha.
Talvez o maior desafio da medicina veterinária moderna não seja apenas fazer os animais viverem mais. Talvez seja entender como fazê-los envelhecer melhor.
Porque longevidade sem qualidade de vida nunca deveria ser considerada sucesso absoluto.













