Nosso carro furou o pneu. Nosso fogão está meio entupido. Nosso trinco da porta do corredor cai e faz um barulhão. A descarga do banheiro faz um barulhinho chato. Tenho que arrumar o armário da área de serviço.
Acho que cada pessoa na família idealiza um apartamento diferente, mais novo, maior, com espaço pra horta, um terraço com piscina. Se for possível, ótimo, quem sabe um dia, mas hoje é sábado e nosso apartamento é o lugar mais feliz do mundo.
Eu me pergunto se as outras famílias são tão felizes. Se no som do vizinho também toca Gil. Não adianta nem me abandonar, se a esposa prepara uma lentilha, se as crianças arrumam a mesa, se alguém prepara um suco de laranja, se ele abre um vinho branco, mistério sempre há de pintar por aí.
Eu me pergunto se as outras famílias estão agora preparando almoço, se os outros apartamentos têm plantas brotando por todos os cantos, se eles também têm uma batata doce em um copo de água dando ramas gigantescas. Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais.
Coloco os pratos na mesa da sala e olho para os talheres, já faz algum tempo que as meninas não usam colher de plástico. Eu lembro, parece que foi ontem. Elas usavam garfinhos de plástico azul claro. O prato da pequena ainda tem um desenho de coruja, mas já é um prato de gente grande.
O tempo passou tão rápido nos últimos dez anos, mas tão lentamente nos últimos dez meses.
Minhas filhas crescem devagar, como as plantas espalhadas aqui pela casa. Todo dia uma folha nova se abre vagarosa. Que não sabe nada, que morre afogada por mim.
Me pergunto se as pessoas tiveram a chance de acordar hoje e aproveitaram meia hora da manhã para ficarem abraçados nos filhos. Me pergunto se as esposas também leram um livro, se os filhos adolescentes acordaram meio dia, se de tarde o vinho fez efeito e teve soneca, se de noite todos se abraçam antes de dormir, se agradecem, obrigado, obrigado, obrigado, tem que arrumar o pneu do carro, o trinco, a descarga, o armário da área de serviço, que estes sejam sempre os nossos maiores problemas.
A vida é incrível.
Aproveite o passeio.
Marcos Piangers
1 Comentário
A VIDA É UM POEMA, ONDE TEMOS FAMÍLIA… SEM ABRAÇOS, QUE PENA. EXISTE SEMPRE ALGO PRÁ CONSERTAR, COISAS PRÁ ORGANIZAR. AGRADECER SEMPRE PELA VIDA .