por Ramon Barbosa Franco
Dia dos namorados chegando e o clima sobre o amor ganha diversos contornos, traz referências. A escrita sempre acompanha os sentimentos, afinal quando o rapaz atravessa a rua e entra na floricultura para escolher um buquê, a balconista já lhe passa o envelopinho com um cartão onde possa expressar o que aquelas rosas, de fato, vão significar. ‘Romeu e Julieta’, de William Shakespeare, é um dos símbolos desta época, entretanto, amor verdadeiro — dizem os entendidos — estaria escondido mesmo em ‘A megera domada’, outra peça deste dramaturgo inglês. Trago outra referência em casal e da Literatura Inglesa, Emily Brontë, de ‘O morro dos ventos uivantes’ (Wuthering Heights, 1847). Dentro deste romance gótico, repleto de frio, propriedades em ruínas, gente insatisfeita e rancorosa (pessoas mal-amadas, para não dizer um termo menos educado), está camuflada a história do amor autêntico.
Antecipo que a partir de agora o texto vai revelar trechos importantes e o conteúdo a seguir contém spoilers. Então, pare de ler e fique só com a imagem do vento soprando naquelas tardes-noites gélidas de Yorkshire, nas colinas repletas de vendavais, onde os adolescentes Heathcliff e Catherine se sentam para desfrutar de afetos e descobertas. A imagem é bonita, inspira, contudo, o verdadeiro amor — se assim podemos classificar este sentimento infinito que move o mundo — ali em ‘O morro dos ventos uivantes’ é o de Hareton e Cathy.
Hareton é sobrinho da velha Catherine, ostensivamente perseguido e maltratado por Heathcliff — este mesmo romântico que está aí sentado no morro uivante. Cathy é a filha que Catherine teve com Edgar Linton, quando prefere se casar com o nobre ao invés do menino abandonado em Liverpool que o pai adotou. Era com Heathcliff que ela corria para o morro, de onde ficava curtindo a paixão e o vento. Mas ela se casou com o nobre Edgar, enquanto Heathcliff caiu no mundo e voltou anos, depois, muito rico. Aí, para Catherine, Heathcliff teria ficado um pouco mais palatável. A paixão dos dois não se consuma em relacionamento, o que se consome é o sopro da vida de Catherine.
O romance avança uma geração. Cathy torna-se viúva do frágil Linton Heathcliff – filho de Heathcliff com Isabella Linton (irmã de Edgar, esposo de Catherine). Do outro lado está o jovem Hareton, primo legítimo de Cathy, privado dos estudos e brutalizado por Heathcliff por pura vingança contra o falecido pai do rapaz, Hindley. Hareton cresce analfabeto e, ainda assim, consegue nutrir bons sentimentos pela figura de seu algoz.
Cathy, agora também restrita à casa, passa a olhar para Hareton com uma certa ternura. Arrependida da forma como o tratava antes e consciente das privações que a vida lhe trouxe, ela passa a alfabetizá-lo. Nos momentos de êxito do aluno, o recompensa com beijos e carinhos. Ao notar que Cathy tem os olhos da mãe e que Hareton repete sua própria história, Heathcliff perde as forças para o ódio e, indiretamente, abençoa a união dos primos antes de morrer.
Aí está o amor que perdoa e a relação que constrói, o afeto que educa e liberta, ao invés de uma paixão gótica que sufoca e só destrói. Prefira neste 12 de junho, Hareton e Cathy, ao invés de Heathcliff e Catherine. Afinal, o que realmente uiva nesta vida é a edificação do bem.
Ramon Barbosa Franco é jornalista e escritor, formado em Comunicação Social pela Universidade de Marília (Unimar). Autor dos livros ‘Nhô Pai, poeta de Beijinho Doce’, ‘A próxima Colombina’, ‘Canavial, os vivos e os mortos’, ‘Contos do Japim’, entre outros. Ocupa a Cadeira 34 da Academia de Letras, Artes e Cultura de Marília.













