Líder da citricultura brasileira, São Paulo transforma qualidade, tradição e inovação em um dos maiores símbolos da integração entre povos por meio da alimentação
Muito antes de chegar aos mercados internacionais, a laranja percorreu continentes, atravessou oceanos e se consolidou como uma das frutas mais consumidas do planeta. Originária da Ásia, difundida pelos árabes e europeus e incorporada à agricultura brasileira ao longo dos séculos, ela se tornou um verdadeiro elo entre diferentes culturas. Hoje, São Paulo responde por cerca de 80% da produção nacional da fruta e aproximadamente 90% do suco de laranja exportado pelo Brasil, consolidando-se como a principal referência mundial em citricultura. A safra 2025/2026 foi estimada em cerca de 314 milhões de caixas de 40,8 quilos, produzidas principalmente no cinturão citrícola formado por São Paulo e pelo Triângulo/Sudoeste Mineiro.
Essa força produtiva está distribuída por regiões tradicionais como Bebedouro, Araraquara, Limeira, Matão, Itápolis, Catanduva, Barretos, São José do Rio Preto, Botucatu, Avaré e Casa Branca, onde a citricultura faz parte da identidade econômica e social de milhares de famílias. Ao longo das décadas, pesquisa científica, inovação tecnológica, manejo fitossanitário, mecanização e condições climáticas favoráveis transformaram esses municípios em referência internacional na produção de frutas de alta qualidade. Além dos pomares, São Paulo abriga as maiores indústrias processadoras de suco de laranja do mundo, agregando valor à produção e fortalecendo a competitividade brasileira.
Os números demonstram a dimensão dessa cadeia produtiva. Em 2025, a citricultura movimentou mais de R$ 20 bilhões entre produção, processamento, logística e exportações, figurando entre os principais segmentos do agronegócio paulista. O Brasil responde por cerca de 70% do comércio mundial de suco de laranja, e grande parte desse resultado nasce nos pomares paulistas. União Europeia, Estados Unidos, Japão, China, Coreia do Sul, Canadá, Reino Unido e países do Oriente Médio estão entre os principais destinos da fruta e do suco produzidos no estado, levando aos consumidores de diferentes culturas um alimento reconhecido pela qualidade, sabor e segurança alimentar.
Essa presença internacional faz da laranja muito mais do que uma commodity agrícola. Em diferentes países, ela integra receitas tradicionais, celebrações, hábitos alimentares e manifestações culturais, seja consumida in natura, em sucos, doces, sobremesas ou pratos típicos. Ao cruzar fronteiras, a fruta paulista fortalece relações comerciais, estimula o intercâmbio gastronômico e aproxima povos por meio de um alimento que está presente nas mesas de milhões de pessoas em todos os continentes.

“Os Estados Unidos são o principal destino do suco brasileiro, mas precisamos buscar novos mercados para garantir a rentabilidade do produtor. Como a agricultura é uma indústria a céu aberto, os riscos climáticos, tanto o excesso de chuva quanto a seca, ameaçam aquele que vive da lavoura. Entre os desafios estão a falta de mão de obra, apesar dos cursos oferecidos pelo Senar, e a oscilação do dólar, que influencia diretamente no custo dos insumos. Aqui em Paranapanema, muitos produtores aproveitam áreas que não são irrigáveis para o cultivo de laranja destinada à indústria de suco“, destaca Cássio Leme, presidente do Sindicato Rural de Paranapanema.
Além da importância econômica, a citricultura paulista impulsiona inovação, sustentabilidade e desenvolvimento regional. A cadeia reúne viveiristas, produtores, cooperativas, transportadores, indústrias, pesquisadores e centros de tecnologia em um sistema altamente organizado e reconhecido internacionalmente pelo rigor sanitário. O enfrentamento de desafios como o greening, aliado aos investimentos permanentes em melhoramento genético, controle biológico e novas tecnologias de manejo, garante a competitividade da produção paulista e reafirma o papel da laranja como um dos maiores patrimônios do agronegócio brasileiro e um símbolo da conexão entre o Brasil e o mundo.
A Laranja pelo Mundo
A laranja é uma das frutas mais consumidas e simbólicas do planeta. Originária do sudeste da Ásia, ela percorreu a antiga Rota da Seda até chegar ao Oriente Médio e, posteriormente, à Europa, tornando-se um elemento marcante da cultura, da gastronomia e das tradições de diversos povos. Atualmente, além de ser um dos principais produtos do comércio agrícola mundial, a fruta representa prosperidade, saúde, hospitalidade e abundância em diferentes culturas.
Entre os países onde a laranja possui maior importância cultural destacam-se:
- China – A laranja e a tangerina são símbolos de prosperidade, riqueza e boa sorte. Durante o Ano-Novo Chinês, é tradição presentear familiares e amigos com essas frutas, pois sua cor dourada remete ao ouro e à fortuna.
- Espanha – A cidade de Sevilha é conhecida mundialmente por suas milhares de laranjeiras que enfeitam ruas, praças e avenidas. A laranja amarga faz parte da identidade da região e é utilizada na produção de geleias, doces e licores.
- Itália – Na Sicília, as famosas laranjas sanguíneas (blood oranges) representam um patrimônio agrícola e gastronômico. Diversos festivais celebram a fruta, utilizada em sobremesas, bebidas, saladas e pratos tradicionais.
- Líbano – A laranja está presente tanto na culinária quanto na cultura do país. A água de flor de laranjeira aromatiza doces tradicionais, como o malabie, o mouhalabieh e outras sobremesas, além de perfumar cafés, xaropes e receitas típicas. As flores também simbolizam pureza e hospitalidade.
- Marrocos – Os pomares de laranja fazem parte da paisagem agrícola do país. A fruta é ingrediente tradicional de saladas, doces, sucos e pratos típicos, enquanto a flor de laranjeira é amplamente utilizada na confeitaria e na perfumaria.
- Portugal – A laranja tornou-se símbolo da região do Algarve, famosa pela produção de frutos doces e aromáticos. A fruta é presença constante na culinária portuguesa e nas festas populares.
- Estados Unidos – O estado da Flórida construiu parte de sua identidade econômica sobre a citricultura. O suco de laranja tornou-se um ícone do café da manhã norte-americano e ajudou a consolidar a imagem da fruta em todo o país.
- Brasil – O país é o maior exportador mundial de suco de laranja, e São Paulo responde pela maior parte dessa produção. Além da importância econômica, a laranja faz parte do cotidiano dos brasileiros, presente em sucos, sobremesas, receitas regionais e na alimentação escolar, simbolizando qualidade, saúde e a força do agronegócio nacional.
- Holanda – Guilherme de Nassau herdou o Principado de Orange, no sul da França. Ele liderou os holandeses contra o domínio da Espanha. Suas tropas vestiam faixas laranjas. A cor passou a representar a identidade do país. A bandeira oficial da Holanda tem três faixas: vermelho, branco e azul. A cor laranja não aparece nela. Isso acontece porque o corante laranja usado antigamente desbotava rápido e virava vermelho. O vermelho acabou oficializado, mas o povo manteve o amor pelo laranja.
Ao redor do mundo, a laranja também inspira festivais e celebrações. Na Itália e na Espanha existem festas dedicadas à colheita da fruta; na China ela é protagonista das comemorações do Ano-Novo Lunar; no Oriente Médio, suas flores perfumam cerimônias e receitas tradicionais. Essa presença global demonstra que a laranja vai muito além de uma commodity agrícola: ela conecta culturas, movimenta economias e carrega significados históricos, religiosos e gastronômicos que atravessam continentes e gerações.
O Malabie
O malabie (ou mhalabieh, muhallebi e outras variações de grafia) é uma das sobremesas mais tradicionais do Oriente Médio e tem origem que remonta ao período do Califado Omíada, entre os séculos 7 e 8. Historiadores atribuem sua criação ao cozinheiro de Al-Muhallab ibn Abi Sufra, importante general árabe, de quem o doce teria herdado o nome. Preparado à base de leite, açúcar e espessado com amido de milho ou farinha de arroz, o malabie conquistou rapidamente os palácios e mercados do mundo árabe, espalhando-se por regiões como Líbano, Síria, Palestina, Jordânia, Egito e Turquia. Ao longo dos séculos, cada povo incorporou ingredientes locais, como água de flor de laranjeira, água de rosas, pistache, amêndoas e frutas cítricas, preservando sua essência como uma sobremesa leve, aromática e refinada.
Muito mais do que um doce, o malabie representa um importante símbolo da hospitalidade e da identidade cultural do Levante. Presente em celebrações religiosas, reuniões familiares, casamentos e festividades tradicionais, ele expressa o valor da partilha e da convivência, características marcantes da cultura libanesa e de todo o Oriente Médio. Com a imigração árabe para diversos países, especialmente para o Brasil, o doce tornou-se um elo entre gerações, mantendo vivas receitas centenárias e fortalecendo os laços com as raízes ancestrais. Atualmente, a sobremesa também ganha releituras contemporâneas, como versões com calda de laranja, que unem ingredientes brasileiros à tradição gastronômica libanesa, valorizando o intercâmbio cultural entre os dois povos.













