Espécie invasora, animais podem levar a riscos econômicos, ambientais e sanitários, segundo especialistas, que pedem medidas urgentes e coordenadas
“Um grande evento que deveria ser levado para outras regiões do país“, assim a chefe da Divisão de Sanidade de Suídeos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Lia Coswig, definiu o Fórum Javali – Impactos, Estratégias e Ação Coordenada, realizado pelo Departamento de Sustentabilidade da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp). O evento reuniu especialistas, caçadores e produtores rurais, que discutiram a necessidade de medidas urgentes para evitar perdas econômicas pela ação dos animais, assim como riscos ambientais e sanitários.
Com base em uma pesquisa realizada pela Faesp, que contou com a participação de 76 sindicatos paulistas, José Luiz Fontes, coordenador do Departamento de Sustentabilidade, mostrou que os animais são realidade em todas as regiões do estado. As principais vítimas dos javalis são os produtores de grãos, mas há casos de perdas de cítricos e olericultura, assim como a contaminação de recursos hídricos que abastecem as propriedades.
“A maior parte dos produtores paulistas são pequenos, familiares, o que impacta decisivamente na sua permanência no campo. É necessária uma ação coordenada e efetiva para controlar os animais e levar mais segurança ao meio rural“, frisou Fontes.
Foram apresentados casos de sucesso no Brasil, nos Estados Unidos e na Austrália, sempre mostrando a necessidade de uma força-tarefa que envolva todos os atores, desde a legislação – para que os produtores não sejam penalizados – até plataformas de monitoramento e cadastro de profissionais de manejo e caça. “Hoje temos uma plataforma que é declaratória e o Ibama vem desenvolvendo uma nova, que pretende mostrar a realidade da situação no país. Eventos como esse são essenciais para criar essa rede de informações e construir um mapa real da presença dos javalis em todo o território nacional“, explicou a diretora de Biodiversidade e Florestas do Ibama, Livia Martins.
O consultor da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Júlio Daniel do Vale, da JDV Ambiental, ajudou na construção das propostas que deram origem ao documento final do Fórum. Ele reiterou, assim como o subsecretário da Agricultura e Abastecimento de São Paulo (SAA), Diógenes Kassaoka, a necessidade de que esse seja um primeiro passo a estruturar as ações futuras. O presidente da Faesp, Tirso Meirelles, na abertura do Fórum, já havia colocado o Sistema Faesp/Senar à disposição, fosse na defesa de políticas públicas mais eficazes, ou na definição de cursos que atendessem a essa urgência do campo.
” Por intermédio do Departamento de Sustentabilidade, estamos levando seminários sobre segurança no campo, prevenção do incêndio, criando todas as estruturas para manter a segurança alimentar de nosso país, que está no pequeno e médio produtor rural. Acho que esse dedicado à palestras, debates e construção de uma matriz de compromissos visando a erradicação da praga dos javalis e javaporcos, é essencial para que possamos sair daqui realmente com uma estrutura pronta de ação, o que vamos fazer daqui para frente“, disse Meirelles.
PONTOS DO DOCUMENTO FINAL
A partir dos debates e da matriz de compromissos, foram consolidadas quatro premissas inegociáveis que orientarão as ações:
- Primeiro: O tratamento com o rigor proporcional à gravidade do problema. É imperativo enfrentar a invasão do javali reconhecendo a extensão dos seus severos danos econômicos nas lavouras, os graves impactos ambientais em nascentes e áreas de preservação, e os riscos sanitários que ameaçam nossos rebanhos e a saúde pública.
- Segundo: A estruturação de uma Política Pública de Estado integrada. O combate ao javali não pode depender de iniciativas fragmentadas. Exigimos e trabalharemos por uma política pública articulada com as pastas envolvidas – agricultura, meio ambiente, saúde e segurança pública entre outras e os entes federativos, garantindo a participação direta e ativa dos produtores rurais, que vivenciam o problema diariamente no campo.
- Terceiro: Estratégias fundamentadas em ciência e coordenação governamental. O manejo não pode ser feito no escuro. Nossas ações operacionais e técnicas devem ser estritamente pautadas no conhecimento técnico-científico, no monitoramento populacional contínuo e na plena integração entre o setor produtivo e o poder público, sob a necessária coordenação do governo.
- Quarto: Aceleração e efetividade das medidas no campo. A burocracia não pode continuar mais lenta que a capacidade reprodutiva da praga. Exigimos ações céleres, eficazes e seguras do ponto de vista jurídico, focadas na mitigação dos riscos, no controle populacional rigoroso e, onde for técnica e territorialmente viável, na erradicação completa desta espécie exótica invasora.
REALIDADE DO CAMPO
A dimensão do desafio ajuda a explicar a mobilização. Considerado uma das cem piores espécies exóticas invasoras do mundo, o javali já tem registros em 15 unidades da Federação e apresenta elevada capacidade de adaptação e reprodução. Além de consumir e destruir plantações, os animais provocam pisoteio, danos ao solo, cercas e estruturas das propriedades, elevando os gastos dos produtores com proteção e controle. Há relatos localizados, em 2026, de perdas de até 40% na cultura do milho em áreas severamente atingidas. Estudo econômico publicado em 2025 indica ainda que, em cenário intermediário envolvendo milho, soja e cana-de-açúcar, o controle populacional poderia resultar, até 2030, em um PIB 0,15% superior ao cenário-base, com benefício estimado em aproximadamente R$ 1.016 para cada animal manejado.













