Cão salsichinha: um símbolo alemão que virou ícone cultural

Pablo Picasso era conhecido por ter inúmeras musas, geralmente mulheres com quem também manteve relações consideradas problemáticas. Mas um cachorrinho escapou de qualquer envolvimento tóxico: um simpático linguicinha – dachshund – chamado Lump.

Antes de se tornar o mais famoso modelo canino de Picasso, Lump pertencia ao fotojornalista americano David Douglas Duncan. Em 1967, o fotógrafo visitou o pintor em sua vila em Cannes, na França, levando o cachorro consigo.

Segundo Duncan, logo no primeiro encontro, Lump pulou no colo de Picasso e aparentemente decidiu permanecer ali. O cão acabou vivendo com o artista por seis anos.

A conexão imediata entre os dois foi eternizada pela arte. Naquele mesmo dia, Picasso pintou o retrato de Lump em um prato de cerâmica, enquanto Duncan registrava a cena em uma série de fotografias.

O prato e as fotos estão entre as atrações da exposição The Dachshund. An Icon off the Leash (”O Dachshund. Um ícone fora da coleira”, em tradução livre), que abriu no sábado (31) e segue em cartaz na Kunsthalle Bremen até 28 de março de 2027.

Lump também aparece em várias obras da série de Picasso inspirada em Las Meninas, a célebre pintura do espanhol Diego Velázquez. Nas releituras, o mastim retratado na obra original foi substituído pelo seu cão adotivo.

Um animal especialmente icônico

Com suas orelhas compridas e o corpo alongado sustentado por pernas curtas, o linguicinha possui uma silhueta imediatamente reconhecível.

“É realmente um cachorro com uma forma icônica, e isso o torna interessante para muitas coisas, da arte à publicidade”, afirma a curadora da exposição e historiadora da arte Annett Reckert.

Além de Picasso, artistas como Andy Warhol, Otto Dix, David Hockney, Max Liebermann e Rosemarie Trockel também prestaram homenagem ao dachshund em suas obras.

“É impressionante com que frequência o linguicinha serviu de musa, modelo e companheiro de estúdio para esses artistas”, disse Reckert à DW.

Segundo ela, o animal também pode ser analisado sob uma perspectiva histórica, já que existe uma forte associação cultural entre a raça e a Alemanha.

O “cachorro texugo” da Alemanha

Criado originalmente para rastrear e caçar texugos, raposas, coelhos e outros animais de toca, o dachshund surgiu na Alemanha há mais de 300 anos.

Os padrões da raça foram estabelecidos em 1879, e o Clube Alemão do Teckel (DTK), uma das mais antigas entidades de criação canina do país, foi fundado em 1888.

O nome dachshund combina as palavras alemãs Dachs (texugo) e Hund (cachorro), significando literalmente “cachorro-texugo”. Na Alemanha, porém, os nomes mais usados são Dackel e Teckel.

Nos países de língua inglesa, a raça é conhecida como wiener dog ou sausage dog. No Brasil, seguiu o mesmo caminho e se popularizou como “salsichinha” ou “linguicinha” e ficou eternizada em comerciais de uma marca de amortecedores e componentes de suspensão na década de 1990.

Incidente diplomático

Além de sua função como cão de caça, o dachshund ocupa um lugar singular na história cultural alemã. O último imperador alemão, Guilherme 2º, era um grande entusiasta da raça e possuía vários exemplares.

Dois deles, chamados Wadl e Hexlsome, protagonizaram um pequeno incidente diplomático em 1908 durante uma visita ao castelo de Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro. Segundo relatos, os dois cães mataram um dos faisões dourados de estimação do arquiduque. O episódio repercutiu entre a aristocracia europeia e levou o imperador alemão a apresentar um pedido formal de desculpas.

Naturalmente, o incidente teve muito menos impacto histórico do que outro evento envolvendo Franz Ferdinand: seu assassinato em Sarajevo, em 1914, considerado o estopim da Primeira Guerra Mundial.

Durante o conflito, o dachshund apareceu com frequência em propagandas e caricaturas políticas. A Alemanha era representada pelo dachshund, enquanto os britânicos apareciam como bulldogs e os franceses como poodles.

Essa associação prejudicou a popularidade da raça nos Estados Unidos. Muitos proprietários passaram a chamar seus cães de “liberty hounds” (cães da liberdade) para evitar o termo alemão.

Na Segunda Guerra Mundial, cães linguicinha chegaram a ser empregados em tarefas militares, como a detecção de minas terrestres.

A outra face da Alemanha

Apesar dessas associações históricas, a curadora Annett Reckert considera que o dachshund simboliza sobretudo simpatia e bom humor.

“Eles simplesmente dão a impressão de ter senso de humor”, afirma. “É claro que isso é uma projeção nossa. Mas realmente transmitem alegria e têm um caráter muito cativante.”

Essa imagem inspirou uma das mais famosas representações da Alemanha do pós-guerra: Waldi, a mascote oficial dos Jogos Olímpicos de Munique de 1972.

Criado pelo renomado designer gráfico Otl Aicher e sua estagiária Elena Schwaiger, Waldi representava uma ruptura deliberada com os símbolos pesados associados ao período nazista, como a águia imperial, a exaltação das florestas alemãs e a disciplina prussiana.

Aicher também rejeitou o uso do marrom e das cores nacionais alemãs, preto, vermelho e dourado. Em vez disso, optou por tons pastéis suaves.

“A abordagem das cores foi realmente visionária”, avalia Reckert. “A intenção era representar algo que ainda buscamos hoje: uma Alemanha aberta, alegre, democrática e colorida.”

Um símbolo disputado

Ainda hoje, grupos de extrema direita tentam se apropriar discretamente da imagem do linguicinha como símbolo nacionalista, exibindo o animal em gravatas ou meias, inspirados em acessórios usados pelo político do partido de ultradireita alemão Alternativa para a Alemanha Alexander Gauland.

Em resposta, surgiu o movimento Dachshunds Against the Right (Linguicinhas Contra a Direita”), que se posiciona contra o extremismo político.

Apesar dessas disputas simbólicas, a exposição em Bremen procura destacar principalmente o lado afetuoso do animal. Algumas salas permitem a entrada de cães de pequeno porte, e a programação inclui obras e performances especialmente concebidas para eles.

O entusiasmo do público, segundo Reckert, tem sido incomum. A curadora relata receber quase diariamente cartas, fotografias, obras de arte e informações sobre eventos relacionados à raça.

“Nunca tive uma exposição recebida de forma tão amigável e diversa mesmo antes da inauguração”, diz. “É algo quase surreal.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *