Os degraus da coragem

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por Ramon Barbosa Franco

Poucas horas antes de começar a escrever esta crônica, folheava na versão em inglês a autobiografia de Sylvester Stallone, ‘The Steps: A Memoir’, escrita pelo próprio astro de ‘Rocky’ e ‘Rambo’ e publicada em setembro deste ano pela editora William Morrow. Em português, a autobiografia recebeu o título de ‘Os Degraus’ e saiu pela Sextante. O livro é resultado de um acumulado de anotações do ator ao longo de sua vida, tendo a escrita se intensificado durante o confinamento da covid-19.

Os trechos que li mostram um Sylvester conciso, porém intenso: autêntico, sincero e atento ao que a geografia lhe proporcionava. A chegada dele a Nova York, o som das rádios escapando dos carros e a rapsódia de falas, barulho e gente lhe proporcionaram um choque. É o herói Édipo se deparando com a Esfinge: ou te decifro, ou me devoras. Quem assistiu ao filme ‘Perdidos da Noite’ (‘Midnight Cowboy’, 1969) — estrelado por Dustin Hoffman e Jon Voight, embalado pela belíssima música ‘Everybody’s Talkin’ — é imediatamente transportado para o cenário que Sly (assim como o ator se autodenomina) descreve. A língua — e, portanto, a literatura — tem essa capacidade de nos transportar para qualquer lugar. É um degrau que nos dá base para novas escaladas e avanços.

Confesso que, quando peguei o exemplar da autobiografia nas mãos e li o título ‘The Steps: A Memoir’, pela cognição das palavras, veio-me à mente a obra ‘Esteiros’, do português Soeiro Pereira Gomes, que narra a maturidade precoce de meninos portugueses obrigatoriamente lançados da infância para a vida adulta às margens do Tejo. Stallone relata que a sua vida também teve muito de dureza e trabalho desde pequeno. A obra é profundamente comovente e reserva lições de resiliência. Afinal, desde 1976, Sylvester Stallone vem se renovando, lançando novos filmes, reinventando-se e ensinando que, na maioria das vezes, o mais importante é saber cair para poder se levantar logo depois.

A flexibilidade demonstrada pelo ator reencontra eco em uma grande escritora brasileira — e, já que hoje, 5 de novembro, é o Dia Nacional da Língua Portuguesa —, vale a pena citá-la: Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982). Ao menos uma obra dela os leitores de hoje conhecem: ‘A Muralha’, adaptada com grande sucesso para a televisão. Escrita em 1954, a obra histórica leva o leitor para a São Paulo ainda chamada de Piratininga, poucos anos após o descobrimento do Brasil. Antes, Dinah já havia emocionado o país com ‘Floradas na Serra’, romance de 1939 que também ganhou versões para o cinema e a TV ao retratar o calvário dos doentes de tuberculose.

A escritora se reinventou — assim como Stallone — e foi uma das mais produtivas e versáteis autoras do Brasil: escreveu peças, biografias, romances, contos, novelas e, sim, deixou uma obra de ficção científica de respeito. ‘Eles Herdarão a Terra’, de 1960, é celebrado até hoje entre os apreciadores do gênero. Embora tenha escrito de tudo um pouco, a autora considerava o romance de fantasia ‘Margarida La Rocque: A Ilha dos Demônios’ a sua obra mais perfeita.

“Uma vez uma freira no colégio me disse que as almas não saíam do inferno porque amavam o inferno. Acho que amo ‘Margarida La Rocque’ porque é o inferno de uma paixão de mulher. Nesse livro, a perseguida se faz perseguidora; a paixão de Margarida La Rocque é o pior demônio da sua ilha”, justificou a própria autora.

Para este Dia Nacional da Língua Portuguesa, fica a homenagem a uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos: Dinah Silveira de Queiroz, nascida em São Paulo e falecida no Rio de Janeiro. Uma autora que se reinventou, lançou-se ao novo e — assim como Rocky, que quando novato não temeu enfrentar Apollo — nunca se acovardou perante os desafios.

Ramon Barbosa Franco é escritor e jornalista, integrante da Academia de Letras, Artes e Cultura de Marília, @ramonbarbosafranco

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