A operação da Polícia Federal deflagrada contra o pastor Silas Malafaia jogou luz sobre uma divisão no meio evangélico em relação à postura do líder religioso.
No último dia 20, Malafaia foi alvo de buscas quando chegava de viagem. Também lhe foram impostas medidas cautelares, e ele está proibido de manter contato com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo e não pode se ausentar do país. Para a PF, há “fortes indícios” da participação do pastor ao lado dos Bolsonaros nos ataques à Suprema Corte e nas negociações para que os Estados Unidos pratiquem “atos hostis” contra o Brasil.
Apesar de entrar na mira das investigações, apontadas como exageradas e persecutórias entre os bolsonaristas, Silas Malafaia não encontrou solidariedade total no meio evangélico. Ao contrário disso.
Figuras religiosas alinhadas aos Bolsonaros há tempos veem o pastor com cautela e desconfiam de suas reais intenções ao buscar proximidade com a família. Para essas pessoas, Malafaia tenta surfar na popularidade do ex-presidente para ele próprio se lançar na política – chegam a dizer até que ele sonha com o Planalto.
Segundo essa corrente, o pastor agiria para criar cizânia entre os filhos Flávio, Eduardo e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro para ele próprio se cacifar como um nome alternativo para representar o ex-presidente em 2026 ou num gesto de demonstração de poder interno. Questionado por VEJA, ele nega (leia abaixo).
Também se espalha que Malafaia já almejou ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF), Corte que hoje ele ataca. Segundo essa versão, o pastor trabalhou pessoalmente para ser ele, e não André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” escolhido por Bolsonaro em 2021.
Conversas com Bolsonaro
A Polícia Federal encontrou diversas mensagens trocadas entre Bolsonaro e Malafaia em julho deste ano, em meio ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump ao Brasil. Nelas, o pastor ataca Eduardo Bolsonaro, chamado por ele de “babaca”, “estúpido de marca maior” e “idiota”, por discordar de sua estratégia em relação à taxação. Também afirma que a família age com “amadorismo” e usa expressões de baixo calão e com palavrões.
As declarações foram alvos de críticas inclusive entre os apoiadores do ex-presidente. “A linguagem do pastor Silas não é cristã. Eu aprendi que a boca fala do que o coração está cheio”, afirma uma influente figura evangélica. “A bíblia é muito clara em relação a palavras torpes. E ele tem uma linguagem não didática, agressiva e até diabólica. Eu acho que ele se revela muito pelo o que fala”, completa.
Malafaia: ‘Não estou nem aí para as críticas’
Procurado, Silas Malafaia disse que a PF cometeu um crime contra ele ao violar o seu sigilo e que tem recebido um número de apoios maior do que de críticas.
“Eu não sou candidato a nada. Não sou político, não sou ligado a partido nenhum. Se um operário, um médico e um jornalista podem emitir opinião política, por que um pastor não? Isso é preconceito”, afirmou.
O pastor acrescentou que desde a operação da PF ganhou mais de 300 mil seguidores nas redes sociais, o que indica que sua posição tem respaldo. “Eu não estou nem aí para as críticas. Eu sei quem eu sou e o que eu faço”, disse.