O que está por trás do envio por Trump de navios de guerra para a Venezuela

Chega a ser cansativo, de tanta movimentação. No tabuleiro global de Donald Trump, as peças não param de ser movimentadas, com o rei americano a bulir com os peões. Nas últimas semanas, em meio a conversas com o russo Vladimir Putin, o ucraniano Volodymyr Zelensky e os líderes europeus, além de costura com o israelense Benjamin Netanyahu, ele tratou de avançar geopoliticamente no que considera ser o seu quintal, em longeva tradição dos Estados Unidos: a América Latina. Trump nunca escondeu o gosto por recuperar o protagonismo nesse pedaço de mundo.

No segundo mandato na Casa Branca, o presidente não tem poupado o uso de armas financeiras e militares para pressionar os países comandados por líderes de esquerda, ao mesmo tempo que busca aproximação com chefes de Estado com quem guarda proximidade ideológica. Nos dois casos, o objetivo é o mesmo: obter vantagens econômicas e estratégicas e frear o expressivo avanço chinês no continente.

Até o momento, a jogada mais radical de Trump foi o envio de uma frota de oito embarcações de guerra para o mar caribenho, a uma distância nada segura para a Venezuela. Há entre elas três destróieres e um submarino nuclear, armados com mísseis de poder de fogo muito superior ao total das forças de defesa do país chefiado por Nicolás Maduro. Sob o pretexto de combater o narcotráfico e aplacar a epidemia de fentanil, o opioide capaz de causar forte dependência química que se espalha pelas cidades americanas, o comandante-em-chefe do exército mais poderoso do mundo pôs a cabeça do próprio Maduro a prêmio, oferecendo recompensa de 50 milhões de dólares para quem forneça informações sobre seu paradeiro. É provocação, não há dúvida, e por óbvio produziu ruído desnecessário. Em resposta, o ditador venezuelano mobilizou a Milícia Bolivariana, organismo paramilitar formado por civis dispostos a pegar em armas para defender o regime socialista, garganteando que 4,5 milhões de pessoas seriam convocadas. A medida fracassou e levou Maduro a recorrer a gesto mais discreto. Cerca de 15 000 soldados foram enviados para a fronteira com a Colômbia, numa tentativa de demonstrar a capacidade de lidar com os traficantes.

Ao menos por enquanto, não há sinal de que o balé resulte em conflito armado. Trump, enxergam os analistas, trabalha para passar um recado nada sutil: a interferência externa em nações que não se alinharem aos Estados Unidos é uma possibilidade real. A subida de tom já havia ocorrido no início do governo, quando o gabinete presidencial emitiu um decreto classificando as facções criminosas latino-americanas como organizações terroristas. A mudança de status permite reações mais enérgicas nos territórios onde elas atuam, incluindo operações militares. A situação é particularmente preocupante no México, onde estão o cartel de Sinaloa de Jalisco e o grupo paramilitar Los Zetas. O mandatário americano alega serem ameaças à segurança nacional e pressiona a presidente mexicana, a esquerdista Claudia Sheinbaum, a controlar o fluxo migratório ao longo dos 3 000 quilômetros de fronteira que separam os dois países. “Uma incursão militar no México é o maior temor da comunidade internacional”, diz a cientista política Lucía Dammert, ex-chefe da assessoria do presidente chileno, Gabriel Boric.

Menos violentas, mas igualmente hostis, são as sanções econômicas e administrativas impostas aos países cujos interesses colidem com os americanos. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos fugidos da revolução castrista, já deixou claro que a diplomacia americana negligenciou durante muito tempo a “vizinhança”, e as coisas precisariam mudar. Passou, então, a retaliar quem identificava como inimigo. Ao Brasil, impôs tarifas de 50%, cassou vistos de ministros do STF e aplicou a pesadíssima Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes. Em Cuba, Haiti e Venezuela, proibiu qualquer cidadão de obter autorizações de entrada. Os hondurenhos e nicaraguenses perderam a autorização especial para viver nos EUA, vigente havia 25 anos.

Ameaçado por Trump de ter o território anexado, o Panamá se antecipou. Retirou empresas chinesas da operação do estratégico canal que liga os oceanos Atlântico e Pacífico e anunciou a saída da Nova Rota da Seda, projeto da China de financiamento de obras de infraestrutura e cooperação econômica. “Toda a América Latina já percebeu que a relação mudou e estão todos tentando lidar com o governo Trump”, diz Maureen Meyer, do centro de estudos WOLA (Escritório em Washington para a América Latina, na sigla em inglês).

Trump atira nos arredores, mas mira mais longe. Seu alvo real, insista-se, é a China, que estende seus tentáculos sobre o Sul Global recorrendo a práticas comerciais menos ofensivas. Entre 2000 e 2020, o volume negociado entre as nações latino-americanas e o gigante asiático saltou de 12 bilhões de dólares para 315 bilhões de dólares — as projeções apontam para 700 bilhões de dólares até 2035. A lista de investimentos diretos em setores cruciais para a economia do século XXI também é significativa e vai de portos no Peru a minas de lítio na Bolívia e Argentina. “Enquanto os americanos se enfiavam em guerras no Iraque e no Afeganistão, a China chegou com dinheiro e se tornou indispensável”, diz Brenda Estefan, pesquisadora do Adrienne Arsht Latin America Center, em Washington. Atualmente, os EUA são os maiores parceiros comerciais apenas de México, Equador e Colômbia.

Nem só de ameaças, contudo, se dá a relação, que dança ao ritmo da ideologia. Aos aliados, o governo americano tem estendido o tapete vermelho, com promessas de ajuda. Em abril, Trump mexeu os pauzinhos para vencer a resistência dos diretores do FMI e conceder à Argentina um empréstimo no valor de 20 bilhões de dólares. A medida permitiu o financiamento da dívida de quase 500 bilhões de reais do vizinho brasileiro. Um alívio e tanto para o autodenominado “anarcocapitalista” Javier Milei, o presidente que emula a agenda trumpista e que se vê enrolado em um escândalo de desvio de dinheiro na compra de medicamentos, envolvendo sua irmã e braço direito, Karina. Nayib Bukele, presidente de El Salvador, foi recebido com honras no Salão Oval depois de abrir as portas das penitenciárias para pessoas detidas preventivamente nos EUA. No encontro, o presidente americano manteve solene silêncio sobre as denúncias de violações de direitos humanos no país da América Central. “A velha política da cenoura e do porrete continua valendo, só não é bem distribuída”, diz Jorge Castañeda, ex-ministro das Relações Exteriores do México.

Afagos e ameaças há tempos dão o tom da dinâmica norte-sul no continente americano. No século XIX, ainda sob ecos da influência colonial europeia, James Monroe, um dos pais fundadores da república americana, determinou que agressões das potências europeias à América Latina seriam estendidas aos Estados Unidos. A Doutrina Monroe, apelidada com o sobrenome de seu criador, visava à proteção, mas logo revelou o caráter intervencionista. No início do século XX, justificaria as invasões em Cuba, Haiti, Nicarágua e República Dominicana. Depois, daria amparo ainda às articulações em torno dos golpes de Estado que instalaram ditaduras militares no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai nos anos 1960 e início dos 1970. Com Trump, o jogo é nítido: ele mostra as armas, esbraveja antes de sentar-se à mesa de negociação. Não está claro, porém, se isso o fará recuperar a influência ou o deixará isolado. A América Latina acompanha ansiosa os próximos movimentos.

Publicado em VEJA de 29 de agosto de 2025, edição nº 2959

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