Um dos autores mais conhecidos e vendidos do Brasil e que dominou com maestria a arte do texto curto, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado, 30, aos 88 anos. Recentemente, o jornalista havia sido internado com princípio de pneumonia na UTI do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, onde ele morava.
Diagnosticado com doença de Parkinson, o autor teve problemas cardíacos em 2016, quando chegou a ser internado no mesmo hospital e precisou passar por cirurgia de implante de marca-passo. Em 2021, o escritor sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) em 2021 e lidava com problemas motores e de comunicação desde então.
Dono de um estilo que alia clareza, humor e uma afiada percepção da intimidade dos brasileiros, Verissimo escreveu mais de 70 livros, mas sua presença na vida nacional por mais de quatro décadas deve-se principalmente ao que publicou em jornais: tirinhas e crônicas, gênero em que se tornou especialista. Versátil, escreveu sobre política, economia, futebol, cinema, música, literatura e, acima de tudo, as “comédias da vida privada” – do namoro ao casamento, dos jogos de sedução ao sexo, da vida familiar às infidelidades, do choque de gerações aos choques culturais.
Entre 1982 e 1989, Luis Fernando Verissimo foi colunista de VEJA, assinando crônicas em uma página semanal de humor com tirinhas produzidas por ele mesmo.
“Seu estilo é o que dizem bestamente de tantos – inimitável. Nenhum de nós, colegas de ofício, consegue fazer assim, desse jeito de quem não quer nada”, afirmou o amigo e também escritor Millôr Fernandes (1923-2012) sobre ele. Coloquial e direto, o texto de Verissimo podia variar no tema, mas nunca abriu mão da característica que o notabilizou: um traço humorístico inconfundível, pois incorporava a crítica.
Acervo Digital VEJA:
O autor que é uma paixão nacional
O inventor do Analista
Criador de personagens inesquecíveis, como o Analista de Bagé (o psicanalista “mais ortodoxo do que rótulo de Maizena”), a Velhinha de Taubaté (“a única brasileira que ainda acreditava na política”) e o detetive trapalhão Ed Mort, o escritor gaúcho também conquistou enorme sucesso como autor de quadrinhos: na tirinha As Cobras, que começou a ser publicada em 1975 no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Verissimo sutilmente criticava a ditadura militar por meio dos répteis, que discutiam política e economia enquanto filosofavam sobre qualquer assunto, do surgimento da vida na Terra ao comportamento dos banhistas nas praias. Fruto de seu amor pelos quadrinhos e “falta de habilidade para desenhar outros animais”, As Cobras foram desenhadas por Verissimo por mais de 30 anos. Só deixaram de ser produzidas em 1997, quando ele, após completar 60 anos, decidiu que “não ficava bem um sexagenário desenhando cobrinhas”. Diversas antologias publicadas ao longo dos anos, contudo, ainda reproduzem as melhores tiras.
Luis Fernando Verissimo começou a experimentar o sucesso comercial com o livro O Analista de Bagé, em 1981 – o psicanalista que segue a linha “freudiano barbaridade” e trata seus pacientes com métodos nada ortodoxos, como joelhadas nos homens e carícias nas mulheres. Em dois dias após o lançamento, a obra estava esgotada e, oito meses depois, já estava na 50ª edição. Fenômeno nas livrarias, Verissimo ganhou sua primeira capa em VEJA. Desde então, foram mais de 280.000 exemplares, cifra que integra os cerca de 5,6 milhões de títulos do gaúcho vendidos até hoje. Seu maior sucesso, porém, é outro: As Mentiras que os Homens Contam, de 2000.
Timidez – Nascido em 26 de setembro de 1936 em Porto Alegre, Luis Fernando Verissimo demorou para se decidir pela carreira literária. Sem curso universitário, tentou ser músico e comerciante até que, já com 30 anos de idade, casado e pai da primeira de suas duas filhas, começou a escrever para o Zero Hora, em 1966. Essa hesitação alimentou a hipótese de que Luis Fernando temia ser comparado com o pai, Erico Verissimo, autor de obras fundamentais da literatura brasileira, como O Tempo e o Vento. Mas ele negou, diversas vezes, que se tratava de um bloqueio consciente. “Eu nunca havia pensado em ser escritor. Talvez achasse que não deveria ser por causa dele, mas não era uma coisa deliberada”, reiterou em 2003 a VEJA.
A literatura, além de lhe dar um rumo na vida, serviu para difundir um dos traços mais conhecidos de sua personalidade: a timidez. “Ser notado pela timidez não deixa de ser uma contradição. Mas há quem diga que ninguém é mais extrovertido do que um tímido, que sempre acha que está sendo o centro das atenções”, filosofou certa vez.
No entanto, bem antes de escrever a primeira crônica, aos 33 anos, o gaúcho teve que começar a lidar melhor com a própria timidez quando foi estudar nos Estados Unidos, aos 16 anos. Lá, se familiarizou com o jazz e aprendeu a tocar saxofone. Aliada na luta contra o ar arredio, a música o acompanhou a vida inteira e, por meio do grupo Jazz 6, o escritor a compartilhou com muitos leitores.
Rio – Ao voltar para o Brasil em 1956, Verissimo começou a trabalhar no setor de arte e planejamento da Editora Globo, no Rio Grande do Sul. Em 1962, se mudou para o Rio de Janeiro, onde foi publicitário e tradutor. Dois anos depois, casou-se com Lúcia Helena Massa, com quem teve três filhos, Fernanda, Mariana e Pedro. Em 1967, decidiu retornar a Porto Alegre, empregado pelo jornal Zero Hora inicialmente como revisor e depois assinando uma coluna sobre futebol.
Em 1970, foi para a Folha da Manhã escrever sobre gastronomia, política e cultura e, três anos depois, publicou seu primeiro livro, O Popular, uma coleção de crônicas e charges. Em 1975, foi lançada sua segunda coletânea, A Grande Mulher Nua, seguida de Amor Brasileiro (1977) e A Mesa Voadora (1978).
Galeria: Tirinhas de Luis Fernando Verissimo
Em 1979, deu vida ao detetive Ed Mort no conto A Armadilha. O personagem voltaria depois em diversas histórias, tornando-se uma de suas criações mais populares. Sempre sem um centavo no bolso, o atrapalhado Mort é uma paródia dos detetives particulares da literatura policial americana, e compartilha seu escritório no Rio de Janeiro com 117 baratas e um rato, Voltaire. A maior parte de seus casos envolve maridos desaparecidos, que ele até encontra, mas sempre se esquece de cobrar pelo serviço. O personagem foi levado ao cinema em 1997 na pele de Paulo Betti.
Depois de se tornar um fenômeno editorial com O Analista de Bagé, seus livros seguintes foram O Gigolô das Palavras (1982 – mesmo ano em que passou a escrever para VEJA), A Velhinha de Taubaté (1983), A Mulher do Silva (1984), O Rei do Rock (1984), A Mãe do Freud (1985) e O Marido do Dr. Pompeu (1987). O primeiro romance veio em 1988, O Jardim do Diabo, um thriller sobre a investigação do assassinato de uma mulher. O inspetor Macieira se depara com o corpo esfaqueado no quarto, cujas paredes revelam frases em grego escritas com o sangue da vítima.
Em 1989, começou a assinar uma coluna em O Estado de São Paulo e, em 1990, lançou o livro Peças Íntimas. O Santinho, para crianças, foi lançado em 1991, também o ano da publicação de Pai Não Entende Nada, para jovens. Na sequência vieram O Suicida e o Computador (1992), Traçando Paris (1992), Traçando Roma (1993), Comédias da Vida Privada – 101 Crônicas Escolhidas (1994), América (1994), O Arteiro e o Tempo (1994), Traçando Porto Alegre (1994), Comédias da Vida Pública (1995), Traçando o Japão (1995), Novas Comédias da Vida Privada (1996), A Versão dos Afogados – Novas Comédias da Vida Pública (1997), Traçando Madrid (1997), Borges e os Orangotangos Eternos (2000).
Nos anos 2000, a editora Objetiva, detentora dos direitos de publicação da obra de Verissimo desde 1999, começa a organizar por temas as crônicas produzidas pelo escritor e lança coletâneas como As Mentiras que os Homens Contam (2000) e Comédias para se Ler na Escola (2001). Em 2002, publica seus poemas pela primeira vez em Poesia numa Hora Dessas?!. Em 2004, um novo romance, O Opositor, cuja narrativa mistura lendas amazônicas a elementos do clássico Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Seus últimos livros foram O Mundo É Bárbaro (2008) e Os Espiões (2009).
Efe Agá – Unanimidade como cronista de costumes, Verissimo despertou controvérsia nas crônicas sobre política. Simpatizante do PT, ele passou a abordar mais o assunto na época da eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência. Ataques ao candidato resultaram em cartas – finamente escritas – que chegaram em sua casa. No texto, ameaças a ele e sua família.
Seu embate político mais famoso, porém, foi com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Crítico do tucano, o escritor irritou muitos leitores – e agradou outros – depois que começou a atacar FHC, a quem só chamava de Éfe Agá. A ofensiva de piadas foi respondida com humor afiado também por Fernando Henrique: “De Verissimo eu só leio o Erico”, alfinetou o ex-presidente numa entrevista.
Além de “elogios” como o de FHC, Luis Fernando Verissimo recebeu diversas homenagens autênticas. Entre os prêmios que ganhou, estão o Homem das Ideias do Ano, do Jornal do Brasil, em 1995, o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano concedido pela União Brasileira de Escritores em 1997 e o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, pelo conjunto de sua obra, em 2009.