Líderes da Amazônia buscam alinhar discurso antes da COP30, mas divisão interna ameaça avanços

Na última sexta-feira, chefes de Estado de oito países amazônicos reuniram-se na Colômbia para a quinta cúpula da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), criada em 1995.

O encontro reforçou a tentativa de projetar a região como ator central no debate climático global, a poucos meses da COP30, que será sediada em Belém, no Pará, em novembro.

A reunião deu continuidade a uma série de encontros que ganharam força nos últimos anos, sob a liderança de presidentes como Gustavo Petro, da Colômbia, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil.

Ambos buscam reposicionar seus países como referências ambientais. Lula, em particular, tenta fazer da Amazônia a vitrine do protagonismo brasileiro na agenda climática internacional.

No entanto, a sequência de cúpulas não tem se traduzido em resultados concretos. Em 2023, durante a reunião de Belém, o Brasil propôs que todos os membros da OTCA assumissem a meta de desmatamento zero até 2030.

A proposta, porém, foi bloqueada por Bolívia, Guiana e Suriname. O compromisso final acabou reduzido a uma promessa vaga de evitar que a floresta alcance um “ponto de não retorno”, estágio em que, após perder entre 20% e 25% de sua cobertura, a Amazônia se transformaria em uma savana seca.

Hoje, estima-se que já tenham sido destruídos de 13% a 17% de seus 6,7 milhões de km² originais.

Parque da Cidade, principal sede da COP30, em construção em Belém. A cidade acelera obras e busca ampliar a rede hoteleira para receber o evento

Retrocessos e contradições

Dois anos depois, os números mostram retrocessos preocupantes. Em 2024, a Colômbia registrou aumento de 50% no desmatamento em relação ao ano anterior, segundo o programa de monitoramento da Amazônia andina.

O avanço é atribuído ao colapso dos acordos de cessar-fogo entre o governo Petro e grupos armados, como o Estado-Maior Central, que em 2022 havia proibido a derrubada de floresta em áreas sob seu domínio.

Na Bolívia, o desmatamento atingiu recordes históricos em 2024. O presidente Luis Arce, do Movimento ao Socialismo, nunca tratou a preservação da Amazônia como prioridade.

Com sua saída marcada para novembro e a disputa eleitoral polarizada entre candidatos conservadores, analistas não enxergam sinais de mudança.

O contraste é maior com o Brasil, que detém 60% da floresta e conseguiu reduzir o desmatamento em 17% no último ano, de acordo com o MapBiomas.

O dado fortalece a estratégia de Lula de apresentar o país como exemplo a ser seguido, embora o governo enfrente críticas pelo avanço da exploração de petróleo, inclusive na foz do rio Amazonas.

Na cúpula de Bogotá, Petro defendeu, com apoio de lideranças indígenas, a proibição da exploração de petróleo e gás na Amazônia.

Mas a proposta foi rejeitada por Brasil, Equador e Venezuela, países com forte dependência das receitas fósseis.

O dilema expõe a contradição central da OTCA: conciliar desenvolvimento econômico baseado em commodities com a urgência de frear a devastação.

Avanços pontuais

Apesar das divergências, houve alguns progressos. Lula anunciou a inauguração, em Manaus, de uma delegacia internacional de cooperação policial contra o crime organizado na região, tema que ganhou destaque na cúpula de Belém.

Outro ponto de avanço foi a aprovação de um marco para um fundo de proteção florestal de US$ 125 bilhões.

O plano prevê aporte de investidores públicos e privados em uma carteira que renderia juros, parte deles destinados a financiar a conservação.

Países beneficiados precisariam manter o desmatamento abaixo de certo limite para receber recursos.

A versão mais recente do projeto inclui papel ampliado para povos indígenas na governança e cláusula que proíbe investimentos do fundo em petróleo e gás. O Brasil pretende lançar oficialmente a iniciativa durante a COP30.

O papel do Brasil e a conexão com a COP30

O protagonismo brasileiro é incontornável. Ao sediar a COP30 em Belém, Lula aposta em projetar a Amazônia como símbolo da transição ecológica global.

A cúpula funciona como plataforma de diplomacia regional para alinhar posições antes da conferência, embora as divisões internas fragilizem a narrativa comum.

O Brasil exerce papel duplo: é ao mesmo tempo fiador do pacto ambiental regional e maior ponto de contradição, por manter ambições de expandir a produção de petróleo.

Ainda assim, a redução recente do desmatamento e a capacidade diplomática de Lula tornam o país peça-chave para convencer outras nações e atrair financiamento internacional.

A criação do fundo florestal, se consolidada na COP30, poderá ser um dos principais legados da cúpula em três décadas de existência.

Mas a pressão sobre os governos será intensa: sem compromissos claros de desmatamento zero e sem frear a expansão de combustíveis fósseis, a credibilidade da aliança pode ruir.

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