Inscrita no mar de Ulisses

IMG-20260215-WA0004

crônica por Ramon Barbosa Franco

Está para ser lançada mais uma revista em quadrinhos inspirada em uma história que concebi para ser roteirizada e desenhada. Sempre que me sento para escrever algo que ganhará vida, seja por meio de imagens ou desenhos, sinto-me um autêntico cineasta. Acredito que essa transposição do texto para a tela é o que faz um cineasta ser, de fato, cineasta. Por exemplo, em ‘O agente secreto’, fica nítido que o roteiro foi concebido por um cineasta — no caso, Kleber Mendonça Filho, que também o dirigiu. O desenrolar das cenas, a forma como se conectam e o clima que remete à sétima arte — inclusive com sequências que transcorrem no cinema da cidade onde se passa a trama — deixam evidente que a história partiu de quem ama e vive o audiovisual.

Numa analogia aos quatro evangelistas do Novo Testamento, quando se recorta o evangelho de Lucas, o médico, nota-se o olhar clínico na descrição dos padecimentos. Em João, o discípulo amado, reside a profundidade espiritual de quem contemplou o Verbo muito de perto; já em Mateus, está a estrutura cuidadosa de quem conecta a tradição ao novo acontecimento. Finalmente, há Marcos, o João Marcos de Jerusalém, cujo texto respira a urgência do tempo pós-ressurreição. Próximo de Paulo na missão de universalizar o Verbo, mas herdeiro das memórias vivas de Pedro, Marcos escreve com a agilidade de quem monta um filme: é o evangelho do movimento, do “imediatamente”, onde a imagem da ação precede o discurso. Assim como esses quatro imprimiram suas vivências e ofícios na narrativa do Sagrado, busquei, no roteiro da nova HQ, imprimir a visão de quem não só escreve, mas projeta o mundo através de uma lente. A lente está na caneta, no sulfite e na tela do notebook.

A história se passa no infinito, no espaço e em mundos ainda a serem conquistados, como Marte: a próxima fronteira física da humanidade. Semanas atrás, a Time publicou uma capa antológica, daquelas de emoldurar: uma reportagem especial sobre a volta do homem à Lua após mais de meio século desde a última aterrissagem. Conectei a minha experiência de conceber um roteiro espacial, vivida há cerca de um ano, nesta mesma época. Assim como o foguete da Artemis II está para ser lançado, ‘Telecontrol – A garantia do amanhã’ também está. Uma das dinâmicas deste roteiro foi conectar a ancestralidade das histórias da humanidade com o futuro pós-moderno. Bebi da fonte de Homero, o poeta grego que compôs a ‘Odisseia’ e nos presenteou com Ulisses. Quando estive no mar de Ulisses — o Mediterrâneo, que nos versos da epopeia é o Mar Jônico — visto pelo litoral de Haifa, na mesma região onde Jesus nasceu há 2026 anos, percebi tudo aquilo e mais um pouco do que já escreveram sobre ele: é o infinito azul na Terra. Se o espaço é o infinito fora da Terra, o amor é o infinito na vida de um homem e a sua verdade mais profunda, para sempre inscrita na memória do tempo.

Ramon Barbosa Franco é jornalista e escritor, formado em Comunicação Social habilitação em Jornalismo pela Universidade de Marília (Unimar). Autor de reportagens, biografias, contos, novelas e romances. E-mail: ramonimprensa@gmail.com. Instagram @ramonbarbosafranco

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *