Força feminina muda o agronegócio com gestão profissional e inovação

Durante muito tempo, a presença feminina no campo permaneceu à margem das estatísticas. Foi só em 2006, com o primeiro levantamento oficial, que essa força começou a ser dimensionada. Naquele ano, pouco mais de 10% das propriedades rurais eram geridas por mulheres, segundo o Censo Agropecuário. Hoje, elas estão à frente de quase 20% das fazendas produtivas do Brasil — são mais de 1,2 milhão de agricultoras espalhadas pelo país. A expectativa é que o próximo Censo do Agro, no ano que vem, registre um salto ainda maior. E há indícios sólidos disso: em sete anos, a presença feminina em cargos de liderança no setor avançou quase 80%, segundo estudo da agência Macfor, e já ultrapassa um terço das posições de comando no agronegócio.

O avanço feminino no agro é consistente, mas não livre de barreiras — como lembra Mônica Marchett, uma das pioneiras na liderança do setor e presidente do Grupo Mônica. À frente de um conglomerado que é referência em pecuária, melhoramento genético de bovinos e agricultura, ela soma quatro décadas de experiência, lidera uma equipe de 500 funcionários e administra 150 000 hectares entre Brasil e Bolívia. Sua trajetória começou aos 20 anos, quando deixou Caxias do Sul (RS) para visitar a fazenda de pecuária do pai em Rondonópolis (MT). “Eu nunca tinha visto uma vaca de perto, mas me apaixonei de cara”, afirma. “Meu pai me deu cinco anos para aprender tudo. Fiz cursos e aprendi na raça.”

No começo, Mônica não via discriminação pelo fato de ser mulher e atribuía os obstáculos à própria falta de experiência. Essa percepção mudou sete anos atrás, quando assumiu o comando total do Grupo Mônica em meio a uma crise familiar. “Aí, sim, percebi como as pessoas duvidavam de nós, mulheres”, diz. “Davam informação errada, achavam que a gente não ia aguentar.” A resposta veio com ações concretas. Ela montou um conselho, escolheu a dedo sua equipe e iniciou o que considera ser seu maior legado — a profissionalização da empresa. Para a produtora, o sucesso também se deve a um estilo de liderança baseado em confiança. “Quem trabalha comigo não é funcionário, é parceiro. Todo mundo precisa entender como a empresa funciona e se sentir parte dela.” Mônica gosta de dizer que, para a mulher, trabalhar com a terra é algo natural. “Nós somos geradoras da vida.”

Essa relação íntima com a terra também está presente na trajetória de Natália Ribeiro, que se prepara para assumir a gestão da Fazenda Campo Redondo, em Araxá (MG), fornecedora de leite para a fábrica de Leite Ninho, da Nestlé, na vizinha Ibiá. Criada entre animais e a natureza, ela não via o agro como destino profissional até fazer, durante a faculdade de agronomia, um estágio nos Estados Unidos, em uma fazenda de hortifrúti administrada por uma mulher. “Foi inspirador ver alguém liderando toda a operação, do plantio à comercialização”, diz. “Aquilo foi um espelho para mim.” De volta ao Brasil, Natália acumulou experiência em empresas como a própria Nestlé, onde foi supervisora de distrito leiteiro em Montes Claros por quase dois anos. Desde os tempos de estudante, ela testemunha o avanço das mulheres no setor. “Quando entrei na faculdade, nossa turma já era praticamente meio a meio entre homens e mulheres”, afirma.

Depois de realizar o sonho de dar a volta ao mundo — passando por Europa, África e uma longa temporada na Ásia —, Natália voltou ao Brasil no ano passado com novas perspectivas. Conta que aprendeu muito sobre liderança, especialmente na gestão de pessoas: saber se relacionar, trabalhar em equipe, escutar. Desde então, atua ao lado do pai e se prepara para, no futuro, assumir a gestão da fazenda, que hoje abriga 200 vacas holandesas, sendo 100 em lactação. Ela já colocou em prática mudanças importantes, como melhorias significativas no bezerreiro, essenciais para o desenvolvimento inicial dos animais. “Foi uma virada de chave muito grande”, diz. Também intensificou as ações de bem-­estar animal, uma das marcas de sua gestão. Com 40 hectares, a propriedade é referência em produção sustentável, adotando medidas que garantem a saúde do rebanho e a qualidade do leite, além de práticas de agricultura regenerativa e redução da pegada de carbono. Tudo na fazenda é acompanhado de perto por Natália e seu pai, Alexandre Ribeiro. Com produção diária de 4 000 litros de leite — uma média de 40 litros por vaca, o dobro da obtida pela maioria das propriedades —, o negócio conquistou a certificação no principal programa de sustentabilidade da Nestlé voltado à cadeia do leite.

A iniciativa da Nestlé reúne cerca de 1 500 propriedades certificadas em Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Goiás, e reconhece produtores que adotam práticas responsáveis, eficientes e sustentáveis. Nesse universo, a empresa também trabalha para ampliar a presença feminina na gestão das fazendas da cadeia do leite. Desde 2019, mantém o programa Força da Moça no Campo, voltado ao desenvolvimento de lideranças femininas por meio de capacitação técnica, econômica e comportamental. Segundo Tamiris Salvador, gerente de agricultura da Nestlé em Araxá, a proposta é que as mulheres tomem decisões baseadas em números e dados, conduzindo as propriedades como verdadeiras empresas. “Queremos que elas percebam seu valor e ocupem cada vez mais espaços de decisão”, afirma.

A multinacional japonesa Japan Tobacco International (JTI) também aposta no protagonismo feminino no campo. “Temos visto cada vez mais mulheres assumindo funções ligadas à gestão da propriedade e à inovação, algo que antes era raro”, afirma Roberto Macedo, líder das operações de tabaco da JTI Brasil. Segundo ele, muitas vezes são elas que dão o primeiro passo e procuram a empresa em busca de melhorias para as propriedades. Para apoiar esse movimento, a JTI mantém duas iniciativas destinadas às produtoras da cadeia do tabaco: o evento anual Força Feminina no Campo, que já alcançou mais de 3 600 participantes em dezenove municípios do sul do país, e o programa Mulheres em Campo, voltado para a capacitação de mulheres que atuam no ramo. “Queremos fortalecer cada vez mais a liderança feminina, oferecendo o conhecimento necessário para que elas assumam a gestão da propriedade”, afirma Macedo.

Produtora de tabaco em Barros Cassal (RS), Nalva Verruck está entre as mais de 300 agricultoras integradas à JTI que já participaram do curso Mulheres em Campo. Ela diz que a capacitação foi decisiva para aprimorar a gestão da propriedade que mantém com o apoio do marido, na qual produzem cerca de 1 000 arrobas de tabaco por ano. “O curso amplia a visão de negócio, ajuda a identificar o que realmente gera lucro e onde é preciso melhorar”, relata Nalva, que divide todas as decisões com o parceiro. “Quando me perguntam minha profissão, respondo com orgulho: sou agricultora.” Assim como Mônica e Natália, Nalva é o retrato do avanço feminino no agronegócio. A boa notícia é que não se trata de uma tendência passageira, mas de uma transformação irreversível nos campos brasileiros.

Publicado em VEJA, agosto de 2025, edição VEJA Negócios nº 17

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