Fintech Jeitto cresce com crédito rápido para classes C e D e fatura R$ 770 milhões

Na constelação do sistema financeiro brasileiro, as fintechs brilham com intensidade crescente. Segundo dados do Banco Central, já são mais de 2 000 instituições tecnológicas em operação no país. Nesse universo altamente competitivo, um caso se destaca pela ousadia da estratégia e pelos resultados conquistados: o Jeitto (no masculino mesmo, como a empresa quer ser chamada). Nos últimos dez anos, a fintech construiu sua trajetória oferecendo crédito de valor baixo — de 50 a 1 200 reais — a clientes das classes C e D, justamente aqueles que o mercado tradicional costuma evitar. Sem exigir comprovação de renda e atendendo até consumidores negativados, o Jeitto coloca dinheiro na conta em três minutos, via aplicativo, com prazo de pagamento de até quarenta dias. A fórmula, considerada arriscada, vem se mostrando altamente eficaz. Não à toa, o modelo passa por forte expansão no Brasil.

No primeiro semestre, o Jeitto alcançou o equilíbrio financeiro e cravou números de respeito: 11 milhões de clientes recorrentes, 3 bilhões de reais em crédito liberado e uma taxa de aprovação de empréstimos três vezes superior à média do mercado. A financeira não divulga o percentual, mas garante ter “a inadimplência controlada com margem positiva”. A bancarização é certa: 35% dos clientes do aplicativo obtiveram na plataforma o primeiro crédito de suas vidas. Para sustentar o avanço, a empresa desenvolveu um sistema de análise que cruza até 800 variáveis. O resultado aparece nos indicadores. No ano passado, o faturamento atingiu 770 milhões de reais, 82% a mais que em 2023. “Nosso modelo tem o tripé tecnologia, análise de dados e ampla oferta de ferramentas para o cliente acessar”, diz o fundador e presidente José Fernando Dias da Silva.

Aos 60 anos, o economista trilhou um percurso pouco comum no mercado financeiro. Após a graduação na Universidade Mackenzie, em São Paulo, e o mestrado em ciências econômicas na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, Silva optou por caminhos profissionais alternativos. Iniciou a carreira na Índia, reestruturou a operação de crédito da GE Capital em Portugal e, recrutado por um head­hunter, seguiu para a Rússia, onde fundou a Renaissance Credit, nos anos 2000. Na década seguinte, expandiu a instituição por Ucrânia, Romênia, Bulgária e Polônia. Depois de consolidar sua carreira nos antigos países socialistas, Silva passou quatro anos na Nigéria, em mais uma empreitada de alto risco: a criação de um banco de crédito popular. “Sou um especialista em operações financeiras em economias vulneráveis e mercados instáveis”, afirma. “Aqui no Brasil, onde muitos veem um osso duro, eu enxergo um filé-mignon. Sempre me senti confortável em trabalhar com essa base populacional de menor renda, mas de grande escala.”

arte Jeitto

Criado em 2014, o Jeitto dedicou cinco anos à construção de uma tecnologia própria de análise de dados. Nesse período, a empresa se resumia a doze profissionais — todos cientistas de dados — e nenhuma linha de produto no mercado. A aposta custou caro. “Você imagina manter uma folha de pagamentos de 250 000 reais por mês durante cinco anos, sem lançar nada? Foi o que a gente fez”, diz Silva. Do longo ciclo de experimentação nasceu o e-Grana, modelo de empréstimos de valor baixo que ganhou escala progressivamente até alcançar a rentabilidade.

Para o economista Enrico Gazola, da Nero Consultoria, o avanço das fintechs voltadas às classes C e D não resulta de acaso. Segundo ele, o crédito de pequeno tíquete e curtíssimo prazo dialoga diretamente com a vida real, ajudando a cobrir urgências como atrasos em contas de consumo e despesas imprevistas — é uma solução valiosa para os mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, lucrativa para quem opera. “Quando se imita o cheque especial, não é filantropia, mas alocação de risco com engenharia de incentivos”, diz Gazola. No caso do Jeitto, acrescenta, o fato de a empresa ter levado dez anos para amadurecer apenas reforça a complexidade do modelo. As taxas de juros do Jeitto se aproximam das praticadas pela Caixa, enquanto a captação de recursos ocorre por meio de debêntures e títulos de crédito. Desde a fundação, a fintech jamais concedeu empréstimos acima de 7 000 reais. O aplicativo também oferece uma plataforma de compras, limitada a operações pontuais dos tomadores — nada de financiar reformas, construções ou a compra de automóveis. Agora, a aposta é avançar no crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada.

Usuário do e-Grana, o motorista de aplicativo Marcos Aurélio Mariano representa bem o perfil médio do milhão de clientes mensais da plataforma. “Minha renda varia muito, trabalho por conta própria”, diz Mariano. “Quando o orçamento aperta, uso o empréstimo para colocar combustível no carro, ter crédito no celular ou pagar alguma dívida.” Para ampliar os negócios, a fintech lançou recentemente sua primeira campanha publicitária em televisão, com exibição exclusiva no SBT. No dia a dia, porém, a comunicação segue centrada em influenciadores digitais voltados ao público de baixa renda. “O crescimento das fintechs de crédito é um dos movimentos mais transformadores do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos”, afirma Camila Serra Araújo, especialista em mercado de capitais do escritório Martinelli Advogados. “O cenário regulatório mais aberto, aliado ao papel dos FIDCs como fonte de financiamento, tem impulsionado de forma decisiva esse avanço.” A regulação do setor de fin­techs começou em 2018, com as primeiras normas editadas pelo Conselho Monetário Nacional. Em 2025, um novo pacote regulatório do Banco Central, que entrará em vigor em setembro, vai ampliar tanto a área de atuação quanto os mecanismos de segurança financeira dessas instituições. “Os estímulos à desconcentração bancária abrem espaço para mais concorrência e para a oferta de produtos mais acessíveis e personalizados”, afirma Camila.

Instalada num prédio perto da Avenida Paulista, em um andar de 850 metros quadrados, com paredes cobertas por cores vibrantes e cartazes lambe-­lambe — como são chamados os pôsteres populares colados em muros e paredes —, a sede do Jeitto lembra mais uma agência de publicidade do que um banco voltado a clientes de alto risco. Ali, cerca de 350 funcionários trabalham sem posições fixas, espalhando-se por mesas e sofás confortáveis. Não há balcão nem atendimento presencial. Todo o ciclo acontece dentro do aplicativo, de forma silenciosa. Trata-se de um modelo discreto, veloz e eficiente para oferecer serviços financeiros aos 75% de brasileiros que compõem as classes C e D, um contingente formado por quase 150 milhões de pessoas, segundo cálculos do IBGE. Nesse cenário, o Jeitto se tornou símbolo de uma grande transformação: converter o crédito de pequeno valor, historicamente negligenciado pelo sistema financeiro tradicional, em ferramenta de inclusão para milhões de brasileiros.

Publicado em VEJA, agosto de 2025, edição VEJA Negócios nº 17

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