Crise na direita impulsiona Eduardo Paes, que costura alianças do PT ao PL

Nos últimos meses, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD) vinha se esforçando para ampliar o arco de alianças para sua candidatura ao governo do estado em 2026. Com apoio do PT, no entanto, sofria resistência das forças da centro-direita, até pouco tempo reunidas em torno do presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar (União). O deputado estadual havia se credenciado para a corrida ao Palácio Guanabara ao costurar um acordo com dois padrinhos de peso: o ex-presidente Jair Bolsonaro, dono de uma militância fiel em seu berço político, e o governador Cláudio Castro (PL), controlador de uma poderosa máquina estatal. Uma briga ferrenha, contudo, rachou o campo adversário e Paes, sem ter feito qualquer esforço, agora está sozinho na disputa, à frente de todos.

O estopim do racha foi um tiro no pé disparado por Bacellar. Ao assumir interinamente o cargo durante uma viagem do governador a Portugal, em julho, ele decidiu demitir o secretário de Transportes, Washington Reis (MDB), ex-prefeito de Duque de Caxias e bolsonarista de carteirinha. O ato unilateral, sem qualquer aviso prévio, irritou o ex-presidente e o fez retirar o apoio ao chefão da Alerj. Com receio de perder a governabilidade, Castro não cedeu aos apelos para reverter a medida, mas passou a tratar o antigo aliado como “traidor”. Com 35% das intenções de voto, aferidos na mais recente pesquisa Quaest, Paes assistiu a tudo de camarote e passou a ser procurado até por adversários. “Formou-se um consenso de que o Eduardo é o único com chances reais de vencer”, reconhece um antigo desafeto do alcaide. 

Dá-se, agora, intensa movimentação de quem teme ficar sem voz no ano que vem. Castro almeja uma vaga no Senado, mas o episódio deixou-o fragilizado dentro do próprio partido. Depois de bater à porta do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de quem ouviu o protocolar conselho de “manter a calma e a paciência”, o governador se reuniu com Paes no Palácio das Laranjeiras, em uma conversa que avançou madrugada adentro. À mesa foi oferecida uma proposta de pacto de não agressão, desde que Paes movimentasse seu grupo político na Assembleia para aprovar projetos de interesse do governo. A aliados, Castro ventila ainda cumprir seu mandato até o fim, apenas para impedir que Bacellar assuma o comando do estado. Com brindes e sorrisos, Paes e Castro selaram o acordo, que conta com aval até do presidente do PL no Rio, Altineu Cortes. 

Entre os caciques dispostos a embarcar na candidatura do prefeito está o deputado federal Doutor Luizinho, o mandachuva do Progressistas no Rio, que mantém laços umbilicais com Bacellar, em função da federação firmada entre sua legenda e o União Brasil. Também em reunião reservada com o gestor municipal, ele pôs sua força política à disposição. Em troca, pediu para indicar o vice e manter o controle da Secretaria de Saúde, órgão em que já exerce forte ascendência. Pelo menos por enquanto, não houve apertos de mão. “Quanto mais Paes se fortalece, menos vale o apoio formal dos partidos”, diz um poderoso ex-adversário, incomodado com as articulações tête-a-tête, que passam ao largo das agremiações políticas.

O governador do Rio, Cláudio Castro, e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar

Depois de ruir, a aliança de direita ficou sem herdeiro natural. Nos bastidores comenta-se que um dos pivôs do racha, Washington Reis, é quem mais tem chances de encabeçar a oposição ao prefeito, mesmo figurando com apenas 5% das intenções de voto. Há, contudo, um problema: ele foi condenado pela Justiça Eleitoral e está inelegível. Curiosamente, é Paes quem oferece ajuda neste caso. De olho nos votos da Baixada, ele já disse colocar “qualquer cargo” à disposição para atrair o ex-secretário para sua chapa. Interlocutores garantem, porém, que mesmo do outro lado do ringue, o cobiçado regente da cidade pode utilizar  sua influência junto a ministros do STF para reverter a decisão e garantir a candidatura do adversário. Assim,  isolaria o bolsonarismo no estado e dividiria ainda mais os oponentes. “Tenho certeza que minha situação jurídica se resolverá ainda esse ano”, limitou-se a dizer Reis a VEJA. 

Caso fique de pé, a ampla coalizão que se desenha ao redor de Paes, criaria uma situação que há muito não se vê no polarizado cenário político brasileiro: um nome de consenso no terceiro maior colégio eleitoral do país. “Não queremos repetir a mesma lógica nacional”, diz o deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ), braço direito do prefeito. “Vamos nos aproximar de todos, do PT ao PL”, assegura. Desde o segundo turno de 2022, o grupo mantém um acordo com o Lula, que garante ao atual presidente a indicação de candidatos ao Senado, ou ao cargo de vice. 

Até o momento, os acenos à direita não geraram protestos na esquerda, que joga parada. “A prioridade no Rio é reeleger Lula, não podemos ter a alma pequena”, diz Washington Quaquá, prócer da sucursal fluminense do PT. Todos piscam para Paes, o noivo do momento, mas sua capacidade de distribuir anéis – leia-se cargos e promessas – é limitada. Resta saber quem ele levará ao altar. 

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