Rafael Cervone*
Em 28 de março de 1928, um grupo de empresários visionários, como Francisco Matarazzo, Roberto Simonsen, Jorge Street, Horácio Lafer e José Ermírio de Moraes, fundou o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), que representou um ponto de inflexão decisivo na história do setor. Pela primeira vez no País, a atividade organizava-se institucionalmente para defender seus interesses, produzir conhecimento e influenciar os rumos do desenvolvimento.
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A criação da entidade ocorreu num momento em que a indústria começava a ganhar fôlego. As dificuldades de importação provocadas pela Primeira Guerra Mundial haviam aberto espaço para a produção local. Em pouco mais de uma década, o número de estabelecimentos industriais em São Paulo saltou de 314, em 1907, para 4.458 em 1920. O Ciesp teve papel relevante nesse processo, inovando no sentido de organizar um setor econômico para reivindicar, gerar informação e formar opinião.
Atuando com eficácia e firmeza, a entidade ajudou a indústria paulista e brasileira a navegar nos mares revoltos da crise de 1929, da Revolução de 32 e da Segunda Guerra Mundial, assim como em episódios mais recentes, como a quebra do subprime dos Estados Unidos, em 2008, as crises políticas intermitentes de nosso país, a pandemia e os desafios do clima, da transição energética e do boom tecnológico. Muito mais do que testemunha, tem sido protagonista da História em sua jornada de quase um século, ajudando a escrever o relevante capítulo referente ao fomento da indústria nacional.
Um marco significativo na trajetória do Ciesp foi o processo de descentralização iniciado em 1949, com a criação de 38 diretorias regionais e quatro seccionais, que levaram a representatividade aonde o industrial está, em todo o território paulista. Hoje, com mais de oito mil associados, é uma das maiores entidades empresariais do mundo.
O Ciesp consolidou-se como voz ativa na formulação de políticas públicas e na defesa de um ambiente de negócios mais competitivo. Sua atuação ocorre em múltiplas frentes, do diálogo e apresentação de propostas a autoridades à produção de estudos técnicos, passando por iniciativas voltadas ao fortalecimento da indústria brasileira.
No campo jurídico, por exemplo, sua atuação tem gerado conquistas importantes para os associados. Vitórias recentes afastaram restrições da Receita Federal que limitavam o uso de créditos tributários obtidos judicialmente. Em outra frente, um acordo homologado com a Cetesb reduziu em até 60% os custos de licenciamento ambiental, além de ampliar o prazo de validade das licenças.
A forte atuação jurídica também resultou em avanços relevantes em temas tributários e de comércio exterior. Dentre eles, a manutenção do índice de 2% no regime de restituição de tributos para exportadores (Reintegra) e a aplicação de alíquota zero de IOF-câmbio para receitas de exportação mantidas no exterior antes de serem remetidas ao Brasil. Outras iniciativas incluem questionamentos judiciais contra aumentos excessivos em encargos do setor elétrico, ações relacionadas ao tabelamento do frete e medidas para garantir valores justos no vale-transporte em diversos municípios paulistas.
O Ciesp também oferece aos associados ampla gama de serviços. São programas de educação e capacitação, geração de negócios, assessoria em comércio exterior, emissão de certificados de origem, rodadas empresariais e iniciativas voltadas à sustentabilidade, como o Instituto Rever, que auxilia empresas a implementarem sistemas de logística reversa.
Em outra frente muito relevante, a do exercício da advocacy e da democracia participativa, a entidade mantém atuação constante na formulação de políticas públicas. Nesse sentido, há dois marcantes exemplos recentes: ao lado de outras organizações representativas do setor, participou de debates e propostas que contribuíram para programas como a Nova Indústria Brasil (NIB) e aprovação da reforma tributária sobre o consumo.
Ao completar 98 anos, o Ciesp reafirma a relevância de uma convicção que orientou seus fundadores e segue inspirando o trabalho de todas as pessoas que dirigem e atuam na entidade, no sentido de que indústria é um dos pilares do crescimento sustentado, da inovação tecnológica, da geração de empregos qualificados, da valorização de nossa pauta de exportações, da ampliação do bem-estar coletivo e da facilitação da vida de todos os cidadãos. Afinal, os produtos que saem das fábricas estão diariamente presentes em todas as atividades contemporâneas.
E a nossa entidade, há quase um século, participa de modo ativo do cotidiano das indústrias paulistas, contribuindo para que cumpram sua missão histórica de promover o desenvolvimento. É com esse propósito que vislumbramos o presente e o futuro do Ciesp e do setor que ele representa, tão crucial para o Brasil.
*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).












