As chuvas intensas que atingiram recentemente cidades como Juiz de Fora, Ubá, Cataguases em Minas Gerais chamaram atenção para o trabalho de resgate de pessoas e animais em áreas afetadas. Em momentos de tragédia, ver um cão sendo salvo por equipes de emergência traz alívio e esperança. Mas o que muita gente não percebe é que o resgate é apenas o primeiro passo. Depois dele, muitos cães enfrentam um período difícil de adaptação, marcado por medo, desorientação e mudanças bruscas em sua rotina devido a nova rotina.
Cães são animais extremamentes sensoriais, gregários mas migratórios. Quando um desastre acontece, tudo em sua volta muda de forma repentina: a casa, cheiros, sons e até as pessoas ao redor. Essa nova estrutura pode gerar diferentes reações comportamentais. Alguns animais ficam retraídos, outros demonstram ansiedade intensa. Em situações extremas, quando há separação dos donos ou perda completa da referência do ambiente, o nível de estresse pode ser ainda maior.
Principais desafios pela frente
Outro desafio que surge após os resgates é o destino desses animais. Em muitas cidades afetadas pelas chuvas, abrigos temporários foram criados para receber cães retirados de áreas de risco, como tem acontecido em Juiz de Fora e aconteceu no estado do Rio Grande do Sul quando aconteceu algo parecido. Com o grande número de animais resgatados, esses espaços acabam rapidamente se tornando superlotados. Mesmo com todo o esforço das equipes de apoio e voluntários, manter muitos cães no mesmo ambiente é um desafio enorme porque a grande maioria não tem conhecimento técnico e não tem treinamento. Muito barulho, proximidade entre animais desconhecidos e mudanças bruscas de rotina criam um cenário de estresse elevado. Cães que já passaram por uma situação traumática acabam tendo que lidar também com a tensão do ambiente coletivo. Esse contexto pode favorecer ansiedade, medo e até conflitos entre os próprios animais.
A domesticação dos cães inevitavelmente trouxe um cenário bem diferente da natureza deles, o “semi cativeiro”. Apenas essa condição já é um desafio para os donos e principalmente os cães. Em cenários de catástrofes essa situação eleva esse quadro e pode em alguns casos, provocar mudanças irreversíveis no comportamento e de difícil manejo humano. Após o resgate, os cães precisam de tempo para recuperar a sensação de segurança. Um ambiente mais calmo, rotina previsível e contato cuidadoso com pessoas ajudam nesse processo. Cada animal reage de uma forma. Alguns se adaptam rapidamente, enquanto outros precisam de mais tempo para confiar novamente no ambiente ao redor. Por isso, o acompanhamento adequado e o manejo correto nesses momentos são fundamentais para reduzir o estresse e favorecer a recuperação desses cães.
O que observar nos animais?
Cresci em uma família cercada por animais e, ao longo dos anos observando o comportamento dos cães, aprendi que eles lidam com mudanças bruscas de forma muito mais sensível do que muitas pessoas imaginam. Em situações de desastre, o momento do resgate costuma emocionar quem acompanha as notícias. No entanto, a história desses animais continuam depois disso, em um processo silencioso de adaptação e recuperação que envolve todo um ecossistema e que em alguns casos, o novo abrigo será seu novo lar.
Já estive presente visitando vários abrigos e inclusive participando de vários multirões de limpezas, consultas, na época da faculdade e sei que o dia a dia não é fácil. A maioria são superlotados e não conseguem suprir as necessidades diária dos animais que na sua maioria é cão e gato.
Resgatar é salvar uma vida, mas o cuidado com esses animais precisa ir além do momento do salvamento. Estrutura adequada, apoio de voluntários e a possibilidade de reencontro com seus tutores ou adoção responsável fazem toda a diferença nesse processo. Em cenários de tragédia, olhar para os animais também é uma forma de ampliar a rede de solidariedade e reconstrução. Precisamos com uma certa urgência de políticas públicas direcionadas á cinofilia no nosso país.












