A VOLTA DO TREM

VOLTA DO TREM MARILIA

Marília vive contagem regressiva para retorno do tráfego de cargueiros e passageiros pelas (ferro)vias do estado e da iniciativa privada

Rodrigo Viudes

Fechada desde 2018 após a passagem do interesse público municipal em transformá-la em uma farmácia municipal, a antiga estação ferroviária de Marília resiste ao abandono, embarcada no comboio da história.

Na antiga gare, o relógio que outrora ponteava o ritmo da cidade pelo vai e vem nos trilhos ainda pende na parede, perdido no tempo. É meia-noite para quem o oeste é o destino, mas crava às quatro antes das 12 horas até a capital.

O velho relógio da estação ferroviária resiste registrando a meia-noite de um dia qualquer no passado (Foto: Rodrigo Viudes)

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Era dia, em 14 de março de 2001, quando a surrada locomotiva se arrastou com seus carros vidrados de prata pelas últimas linhas da história do transporte regular de passageiros em Marília, rumo a São Paulo, para nunca mais voltar.

Últimos trens de passageiros partiram de Marília em 2001 (Foto: Arquivo)

Ainda os cargueiros, esgarçando os velhos trilhos deitados em 1958 na troca da bitola, atravessaram Marília até 2009 – da Ferroban à ALL, hoje Rumo Logística – açucarando para o exterior, a última memória dos trens por aqui.

Passados 16 anos da última viagem, após mais de oito décadas de serviços prestados no oeste paulista, os comboios ensaiam o retorno a Marília, tracionados por novos tempos para o setor ferroviário paulista.

MARCAS DO TEMPO

Desde o último trem, a ferrovia desconectou-se da rotina de Marília. Aos poucos, o mariliense desacostumou-se a parar, olhar e escutar nos cruzamentos das passagens de nível – das urbanas às clandestinas.

Ainda assim, a duplicação da antiga passagem das roseiras, palco de acidentes ferroviários fatais, ganharia novas e modernas cancelas por ocasião da duplicação dos acessos sobre trilhos em obra viária para acomodar o fluxo da inauguração de um supermercado.

Os novos equipamentos, adquiridos pela Prefeitura, seriam instalados ali e no acesso entre as avenidas República e Sanches Cibantos, nunca entrariam em operação. A base das Roseiras foi retirada há poucos meses. A outra hoje sinaliza para o desperdício de dinheiro público.

Em desuso, os trilhos envergaram pela ação do tempo, do calor e do vandalismo. Por baixo, sobreveio o desgaste provocado pelas chuvas, com abertura de crateras. Por cima, o assentamento do mato e do pavimento.

Trilhos suspensos em trecho urbano de Marília, ao lado da avenida das Esmeraldas (Foto: Rodrigo Viudes)

Sem trens, a estação foi ocupada por outros passageiros. Além dos andarilhos, depois os camelôs, que fincaram, em plena gare, estranhos vagões, hoje fadados à retirada pela Justiça em processo de reintegração de posse ferroviária.

Do mesmo modo, outras invasões penetradas nas faixas de domínio ao longo dos 22 quilômetros de ferrovia em território mariliense impuseram desvios urbanos onde deveria haver apenas trilhos.

ENGATES DE RETORNOS

Ainda que o cenário seja desolador, movimentos recentes engataram a retomada do tráfego ferroviário em Marília, seja para o transporte de cargas ou para o retorno do transporte regular de passageiros.

A primeira renovação antecipada de uma concessão ferroviária da história do Brasil permitiu, em 2020, que a Rumo Logística (antiga América Latina Logística – ALL) esticasse de 2028 a 2058 a administração de sua Malha Paulista.

Entre as obrigações, a reativação do ramal Bauru-Panorama, que passa por Marília. Os trabalhos de recuperação da ferrovia começaram em julho de 2024 e devem prosseguir até 2028, segundo a concessionária.

Na semana passada, a Rumo Logística obteve a renovação das licenças ambientais para reativar o trecho com mais tempo de inatividade no ramal ferroviário, entre Tupã e o porto de Panorama, no rio Paraná.

No meio do caminho, os trilhos em Marília reapareceram como destino final para futuro trecho de extensão do Trem Intercidades (TIC) que ligará São Paulo a Sorocaba. O trecho está em processo de concessão pelo governo paulista.

Segundo estudo técnico divulgado pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Marília ‘esticará’ a retomada do transporte de passageiros sobre trilhos como ocorrera em sua fundação, no final dos anos 1920.

Pelas novas linhas da retomada ferroviária, uma futura viagem a São Paulo necessitaria de baldeação na estação de Bauru por conta da diferença de bitola (distância entre trilhos) dos trechos das antigas Fepasa e Sorocabana.

Também os trens serão diferentes daqueles que passaram por aqui. Saem de cena os comboios tracionados por locomotivas e entram os novos modernos, com sistemas de monitoramento, tomadas, ar-condicionado e Wi-Fi.

PRAZOS E GARGALOS

Enquanto trafegam as novidades por estas linhas – as do Fala Marilia mesmo – o transbordo das expectativas para a realidade precisam seguir a velocidade própria dos itinerários burocráticos, econômicos e políticos que se avizinham.

O TIC Sorocaba ainda aguarda pela publicação de edital, prevista para este ano. Uma vez leiloado, suas operações têm previsão de início em 2031. Neste tempo, a extensão até Marília já deverá ter seu próprio processo de concessão.

Ainda antes, o transporte de cargas já poderá estar de volta à cidade, a depender da disponibilidade de cargas. Em Marília, estuda-se a instalação de um porto intermodal no distrito de Lácio.

Futuros trens de carga da Rumo Logística devem retomar tráfego em Marília (Foto: Rodrigo Viudes/Gemini)

A iniciativa visa mitigar o impacto da retomada do tráfego de trens pela cidade, ao tempo que o governo municipal encontre soluções de mobilidade urbana para reorganizar essa convivência com uma ferrovia ativa.

A hipótese da construção de um contorno ferroviário é desestimulada pelos altos custos de engenharia que teriam de ser empregados para adaptar os trilhos à topografia de entorno demarcada por vales e itambés.

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