Trabalhos de Maria Júlia Lanzarini Silva e Lívia de Lima Souza receberam nota máxima na primeira etapa do Congresso de Iniciação Científica
Duas pesquisas desenvolvidas a partir da realidade vivenciada por pessoas em situação de rua em Marília foram reconhecidas na primeira etapa do XXXVIII Congresso de Iniciação Científica e Tecnológica da Unesp (CIC). As estudantes Maria Júlia Lanzarini Silva e Lívia de Lima Souza, do curso de Terapia Ocupacional da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília, receberam nota 10 e estão classificadas para a segunda fase do congresso.
Os trabalhos têm orientação da professora doutora Bárbara de Fátima Depole e foram construídos a partir da experiência vivenciada no Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), equipamento da Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (SASC).
Embora tenham como ponto de partida o mesmo território, os estudos abordam diferentes aspectos da vida das pessoas em situação de rua e ajudam a ampliar o olhar sobre uma população que, muitas vezes, é percebida apenas a partir da vulnerabilidade social.
O trabalho de Lívia de Lima Souza, intitulado “Entre silêncios e preconceitos: A Terapia Ocupacional na invisibilidade social sob a ótica da população em situação de rua”, volta-se para a forma como essas pessoas percebem a própria invisibilidade e os preconceitos presentes em suas trajetórias.
Já a pesquisa de Maria Júlia Lanzarini Silva, denominada “A saúde da população em situação de rua e suas ocupações: Entre a invisibilidade social e a luta por dignidade”, aborda a relação entre saúde, cotidiano e ocupações, considerando as experiências concretas de quem vive essa realidade.
Para desenvolver os estudos, as estudantes participaram de atividades e oficinas no Centro POP, estabelecendo contato direto com os usuários do serviço. A proposta possibilitou uma escuta atenta de experiências, necessidades e demandas que fazem parte do cotidiano dessa população.
A metodologia adotada teve a cartografia como referencial, em uma perspectiva de pesquisa-intervenção. Dessa maneira, o trabalho não se limitou à coleta de informações, mas foi construído a partir dos encontros e das experiências compartilhadas ao longo do processo.
A presença das estudantes no Centro POP também permitiu que a pesquisa acadêmica se aproximasse do cotidiano do serviço e das pessoas atendidas. A partir da escuta, foram criados espaços de diálogo e reflexão que contribuíram tanto para a construção dos estudos quanto para a valorização das experiências dos participantes.
Para a assistente social e coordenadora do Centro POP, Andrea Luiza Mataran, a parceria demonstra a importância de abrir os espaços da política pública para a produção de conhecimento comprometida com a realidade social.
“Foi uma experiência muito importante para o Centro POP porque possibilitou uma troca verdadeira entre a universidade, o serviço e as pessoas atendidas. As estudantes chegaram com disposição para ouvir e compreender, e isso fez toda a diferença. Quando damos espaço para que as pessoas em situação de rua falem sobre suas próprias experiências, conseguimos enxergar além das situações de vulnerabilidade e compreender suas histórias, suas potencialidades, seus desejos e também as barreiras que enfrentam no cotidiano.”
Andrea destaca ainda que a aproximação com a universidade contribui para ampliar a compreensão sobre a população atendida pelo serviço.
“A pesquisa também nos ajuda a refletir sobre a nossa própria prática. O conhecimento produzido a partir do território pode contribuir para que os serviços estejam cada vez mais atentos às necessidades reais das pessoas e para que o atendimento seja construído com respeito, escuta e dignidade.”
Para a secretária municipal de Assistência Social e Cidadania, Hélide Maria Parrera, a classificação das estudantes evidencia a importância da aproximação entre a universidade e as políticas públicas.
“Quando a universidade se aproxima do território e coloca a ciência a serviço da compreensão da realidade, temos uma contribuição muito importante para toda a sociedade. O trabalho desenvolvido no Centro POP mostra que a produção científica pode nascer da escuta, do diálogo e do respeito às pessoas. Para a SASC, é uma satisfação ter participado desse processo e poder contribuir para a formação dessas futuras profissionais.”
A experiência também reforça a importância da Terapia Ocupacional na compreensão das atividades, relações e possibilidades que fazem parte da vida cotidiana. Ao olhar para as ocupações, a área considera não apenas aquilo que uma pessoa faz, mas também as condições sociais que favorecem ou dificultam sua participação na sociedade.
No caso da população em situação de rua, esse olhar permite discutir questões que ultrapassam o acesso aos serviços básicos e alcançam temas como autonomia, pertencimento, vínculos, saúde, preconceito, participação social e dignidade.
A primeira etapa do XXXVIII CIC reuniu trabalhos de estudantes da Unesp em diferentes áreas do conhecimento. As pesquisas classificadas seguem agora para a segunda fase do congresso, ampliando a visibilidade de estudos desenvolvidos durante a graduação e de experiências de formação científica vinculadas aos territórios.
Mais do que uma experiência acadêmica, os trabalhos de Maria Júlia e Lívia mostram que a pesquisa pode ser construída a partir do encontro com o outro. No Centro POP, a ciência encontrou histórias, experiências e diferentes formas de compreender a cidade.
A nota máxima obtida na primeira etapa do CIC representa o reconhecimento acadêmico desse percurso, mas os resultados dos estudos também deixam uma contribuição para além do congresso: a possibilidade de ampliar o olhar sobre a população em situação de rua e reforçar que ouvir essas pessoas é parte fundamental da construção de políticas e práticas mais próximas da realidade.
Agora, as duas estudantes se preparam para a segunda fase do Congresso de Iniciação Científica, levando consigo pesquisas que nasceram no território e que têm como elemento central justamente aqueles que, muitas vezes, permanecem pouco ouvidos: as próprias pessoas em situação de rua.














