Seu filho não perdeu a ambição, talvez esteja treinando o cérebro para querer tudo agora

IMG-20260915-WA0011 (1)

Adriano de Oliveira

Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo

CRP: 06/150383

Instagram: @psicologoadrianodeoliveira

“É só mais um vídeo.” Talvez essa seja uma das frases mais importantes para compreender a adolescência digital. O problema dos vídeos curtos não está simplesmente em durar quinze, trinta ou sessenta segundos. Está na sucessão quase infinita de estímulos rápidos, recompensas imediatas e mudanças de assunto que treinam o cérebro a permanecer no presente mais curto possível: o próximo vídeo.

Nos últimos dias, voltou a ganhar repercussão um estudo com mais de 1.500 estudantes do ensino médio que relacionou o consumo problemático de vídeos curtos a uma pior “perspectiva temporal de futuro”, isto é, à capacidade de conectar escolhas realizadas hoje às consequências de amanhã. Isso não significa que TikTok, Reels ou Shorts, isoladamente, destruam o planejamento de um adolescente. Mas a discussão toca em uma tarefa central dessa fase: aprender a adiar recompensas.

Estudar para uma prova, guardar dinheiro, treinar para melhorar em um esporte ou aprender uma habilidade exige tolerar um período em que o esforço aparece antes do resultado. Já o ambiente dos vídeos curtos oferece o contrário: estímulo, novidade e recompensa em segundos.

É aí que muitos pais confundem dificuldade de começar uma tarefa com preguiça ou falta de caráter. Entretanto, autorregulação, planejamento, controle dos impulsos e tomada de decisão dependem de funções executivas que continuam amadurecendo durante a adolescência. Se o cotidiano é preenchido por experiências de gratificação imediata, atividades lentas podem parecer ainda mais difíceis de sustentar.

Isso não significa demonizar as redes. Vídeos curtos também podem ensinar, divertir e ampliar repertórios. O problema aparece quando o adolescente perde a capacidade de escolher quando entrar e, principalmente, quando sair.

Alguns sinais merecem atenção: dificuldade crescente para estudar sem consultar o celular, irritação intensa ao interromper o uso, abandono rápido de tarefas que exigem esforço, sono prejudicado e uma rotina organizada em torno de recompensas imediatas. Nenhum desses comportamentos, isoladamente, fecha um diagnóstico. Mas juntos podem indicar dificuldade de autorregulação.

A resposta dos pais também precisa amadurecer. Retirar o telefone por castigo pode interromper o comportamento naquele dia, mas não ensina necessariamente autocontrole. É mais produtivo criar horários de uso, retirar notificações durante atividades importantes, manter o aparelho fora do quarto à noite e conversar sobre objetivos reais: o que você quer construir nos próximos seis meses? O que precisa fazer hoje para chegar lá? Essas perguntas devolvem o futuro ao adolescente.

Quando desatenção, procrastinação, impulsividade e queda acadêmica se tornam persistentes, também é importante não atribuir tudo às redes sociais. TDAH, ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem, privação de sono e conflitos emocionais podem coexistir. Uma avaliação psicológica ou neuropsicológica pode ajudar a diferenciar hábito, contexto e funcionamento cognitivo.

Talvez o maior risco dos vídeos curtos não seja consumir alguns minutos a mais do dia. É permitir que o cérebro se acostume tanto ao “agora” que tudo aquilo que exige espera comece a parecer insuportável.

Criar adolescentes preparados para o futuro não significa proibir o presente digital. Significa ajudá-los a recuperar uma competência que nenhum algoritmo deveria controlar: escolher aquilo que vale a pena sustentar mesmo quando a recompensa ainda está longe.

Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você, Vamos conversar ?

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *