Fábio Alexandre Guimarães Botteon
Gestor de Pessoas e Mentor de Líderes
Instagram: @instituto.botteon
Existe uma pergunta que todo empresário deveria fazer antes de comemorar que sua equipe começou a utilizar inteligência artificial: estamos realmente produzindo melhor ou apenas produzindo mais rápido?
A diferença parece pequena, mas pode determinar quais empresas transformarão a IA em vantagem competitiva e quais apenas acrescentarão mais uma ferramenta à rotina.
Nos últimos meses, fomos convencidos de que velocidade significava produtividade. Textos são produzidos mais rapidamente, apresentações aparecem em minutos, análises que consumiam horas podem ser iniciadas em segundos.
O problema é que eficiência operacional não significa necessariamente qualidade de decisão.
Um levantamento divulgado recentemente mostrou um paradoxo interessante: trabalhadores pesquisados passam, em média, 87 minutos por dia utilizando inteligência artificial, mas apenas 35% desse tempo é percebido como imediatamente produtivo. Parte importante do restante é consumida corrigindo resultados, refinando comandos e tentando fazer a ferramenta entregar aquilo que se esperava.
Isso revela um problema que não é tecnológico. É de liderança.
Quando uma empresa entrega IA para uma equipe sem desenvolver pensamento crítico, capacidade de análise, clareza de processos e critérios de decisão, ela pode apenas automatizar a confusão que já existia.
E existe outro risco ainda mais silencioso, pois quanto mais as pessoas encontram respostas prontas na tecnologia, menos precisam conversar com colegas experientes. No mesmo levantamento, praticamente metade dos profissionais percebe uma lacuna relevante de comunicação entre trabalhadores mais seniores e mais jovens, enquanto muitos relatam dificuldade crescente na mentoria entre gerações.
Imagine o impacto disso no longo prazo.
Durante décadas, parte importante do desenvolvimento profissional aconteceu em conversas aparentemente simples: “como você faria isso?”, “olhe esse problema”, “vou te explicar por que tomamos essa decisão”. É nesse processo que conhecimento técnico se transforma em experiência.
Se cada dúvida passar diretamente do profissional para uma máquina, podemos construir uma geração extremamente rápida para encontrar respostas e perigosamente frágil para formular perguntas.
Por isso, o líder contemporâneo precisa assumir uma nova responsabilidade: ensinar sua equipe a pensar com a tecnologia e não simplesmente delegar o pensamento para a tecnologia significa estabelecer critérios.
Antes de perguntar “qual IA você está usando?”, talvez a liderança precise perguntar: qual problema estamos tentando resolver? Qual decisão esse trabalho precisa sustentar? Como verificaremos a qualidade da resposta? Quem continua responsável pelo resultado?
A inteligência artificial pode ampliar extraordinariamente a capacidade de uma equipe. Mas existe uma regra que continuará válida: tecnologia potencializa sistemas bons e também potencializa sistemas ruins.
Uma equipe desorganizada com IA pode apenas ficar desorganizada mais rapidamente e uma liderança sem clareza pode produzir centenas de relatórios e continuar tomando decisões ruins.
Uma empresa sem cultura de aprendizagem pode possuir as melhores ferramentas do mercado e continuar intelectualmente pobre.
O diferencial competitivo, portanto, não será simplesmente possuir inteligência artificial, afinal praticamente todos terão acesso às mesmas ferramentas. A verdadeira vantagem estará nas pessoas capazes de fazer melhores perguntas, interpretar informações, confrontar resultados, conectar conhecimentos e tomar decisões responsáveis.
No futuro próximo, talvez a competência mais valorizada de um líder não seja saber tudo, mas será impedir que sua equipe deixe de pensar.
E isso exige desenvolvimento de liderança, método, acompanhamento e maturidade gerencial. Porque a tecnologia se compra em minutos e a cultura e capacidade de liderança precisam ser construídas.
Faz sentido para o seu momento atual? Se sim, adoraria trocar uma ideia com você.













