Em Santa Cruz do Rio Pardo, durante o início do plantio nacional da soja, Tirso Meirelles afirmou que crescimento das safras precisa ser acompanhado por investimentos de longo prazo em armazenagem, logística e agroindustrialização
O Brasil avança na produção de grãos, mas ainda convive com um gargalo capaz de transformar safras recordes em pressão sobre o próprio produtor rural: a falta de capacidade para armazenar adequadamente tudo o que sai do campo. O alerta ganhou destaque durante a cerimônia de Abertura Nacional do Plantio da Soja – Safra 2026/2027, realizada em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), nesta quinta-feira (24). Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, o país precisa de um novo modelo de infraestrutura para o agro, com planejamento de longo prazo e investimentos capazes de acompanhar o crescimento da produção.
A deficiência de armazenagem afeta diretamente a capacidade de negociação do agricultor. Sem estrutura para manter os grãos na propriedade ou em unidades próximas às regiões produtoras, eles precisam comercializar a safra logo após a colheita, período de maior oferta e pressão sobre os preços. “Nós temos falta de armazenagem, somos obrigados a vender a nossa safra no período onde os preços são mais baixos”, afirmou Tirso Meirelles durante o evento. Para a Faesp, ampliar a capacidade estática, estimular armazéns nas propriedades e facilitar o acesso ao crédito para esses investimentos são medidas essenciais para dar ao produtor maior liberdade na escolha do momento de venda.
A cobrança ganha ainda mais relevância diante do crescimento da produção brasileira de soja. A safra 2025/26 alcançou cerca de 180 milhões de toneladas, praticamente o dobro do volume registrado uma década antes. Esse avanço, sustentado por tecnologia, pesquisa, profissionalização e investimentos dos produtores, exige que a infraestrutura evolua no mesmo ritmo. “Não podemos continuar pensando a infraestrutura depois que a produção já cresceu. Precisamos antecipar os gargalos. Armazenagem, logística, crédito, seguro rural e conectividade devem fazer parte de um planejamento permanente para o campo, com horizonte de décadas, e não apenas de uma safra”, defendeu Meirelles.
O presidente da Faesp também destacou que a transformação da infraestrutura rural deve ir além dos silos e armazéns. O Brasil precisa ampliar o processamento de sua produção e criar mecanismos para que agricultores, cooperativas e associações participem mais intensamente da agroindustrialização. A soja que deixa de ser comercializada apenas como matéria-prima e passa por processamento gera novas cadeias de valor, empregos, investimentos e renda nos municípios produtores. “Precisamos produzir, armazenar e também agregar valor. O produtor não pode permanecer apenas como fornecedor da matéria-prima. Ele precisa ter condições de participar dessa riqueza que começa dentro da propriedade”, afirmou Tirso.
A realização da Abertura Nacional do Plantio da Soja em Santa Cruz do Rio Pardo reforçou justamente essa necessidade de discutir o futuro da produção a partir das regiões onde ela acontece. O presidente do Sindicato Rural de Santa Cruz do Rio Pardo e um dos fundadores da Aprosoja-SP, Antonio Consalter, elogiou a escolha da cidade, pela segunda vez nessa década, por representar um perfil diferente do que fica na visão do povo. “Aqui somos pequenos produtores, muito diferente das grandes propriedades que as pessoas estão acostumadas a ver quando se fala em soja“.
OUTROS DESAFIOS
Outros desafios foram apresentados durante a cerimônia. O secretário da Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho, lembrou que os produtores rurais estão hoje com R$ 170 bilhões em dívidas, por conta das dificuldades para crédito e falta de seguro que cubra quebras de safra e demais problemas causados às plantações. “O agro, historicamente, sempre foi bom pagador. Como a política agrícola deixou de ser feita por quem conhece, o setor agropecuário deixou de ser o motor da economia para virar apenas o caixa“, frisou o secretário, lamentando que mais de 14 mil propriedades tenham ido a leilão no último ano por incapacidade dos produtores saldarem suas dívidas.
O diretor do Departamento Técnico e Econômico da Faesp, Cláudio Brisolara, apontou a importância do Brasil na produção e exportação de produtos, mas alertou que é necessário que o país também passe a ter influência nas negociações. “A gente tem de atuar na parte diplomática, para o Brasil sentar as mesas de negociação internacional e influenciar nas formulações. Nessa preocupação com a lei anti-desmatamento, por exemplo, precisamos estar dentro das discussões, no momento que essas ideias surgem, porque aí a gente tem um poder de persuasão 20, 30 vezes maior. Depois da regulamentação, o nosso poder é muito menor. E isso influencia preço“, explicou Brisolara.
Participaram ainda do evento o presidente da Aprosoja nacional, Lucas Beber; o presidente da Aprosoja-SP, Andrey Rodrigues; o prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo, Otacílio Parras Assis, além dos presidentes dos sindicatos de Tupã, o diretor da Faesp Márcio Vassoler; de Paraguaçu Paulista, Jean Adriano Pereira e Milton Janegitz; de Ribeirão Bonito, a vice-presidente da Faesp, Eneida Paschoal; de Palmital, Benedito Hélio Orlandi, o Bertola, representando o presidente; de Bauru, José Maurício Lima Verde; de Dracena, Daniel Pagnozzi; de Bernardino de Campos, Dácio de Toledo Castanho Junior; e de Paranapanema, Cássio Leme; de Ourinhos, o vice-presidente da Faesp Eduardo Luiz Bicudo Ferraro, o Brigadeiro; de Piraju, Luiz Otávio Motta.













