‘Parar nunca foi opção’, diz triatleta olímpica Luisa Baptista após atropelamento

A final do vôlei masculino, nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, fez de mim uma atleta, aos 10 anos de idade. A espetacular virada do Brasil sobre a Itália me despertou a vontade de estar no maior torneio esportivo do mundo. “Como faço?”, perguntei à minha mãe. “Treina bastante”, foi a resposta. Com determinação, cheguei lá. Comecei na natação ainda bebê e nunca mais parei de praticar esporte. Fiz vôlei, capoeira, ginástica e atletismo, até conhecer o triatlo. Foi obra do acaso. Aos 16, um treinador de Araras, no interior de São Paulo vizinha a São Carlos, onde moro, me viu chegar ao clube de bicicleta, nadar na piscina e correr para aquecer para o treino de tênis. “Você já faz triatlo e não sabe”, ele disse. Me apaixonei pela modalidade que me levou a conquistar uma medalha de ouro no Pan-Americano de 2019, em Lima, no Peru, e viabilizar o sonho de representar meu país nos Jogos de Tóquio, em 2021. Obstinada, me preparava para ir para a Olimpíada seguinte, a de Paris, quando um acidente interrompeu tudo.

Como todo atleta de elite, treinava de domingo a domingo, às vezes em três períodos por dia. Em 23 de dezembro de 2023, saí cedo para a última prática do ano, antes de viajar para o Natal em família. Durante o pedal, em uma estrada municipal, um motociclista embriagado e sem habilitação me atropelou. Não lembro de muita coisa, só o que me contaram. Minha mãe se mudou para o hospital para me acompanhar e meu pai e meu irmão viajavam semanalmente para me visitar. Desacordada, consegui abrir os olhos oito dias depois de internada em uma UTI, mas apenas ao reconhecer meu fisioterapeuta e minha treinadora, quase um mês depois, tive consciência de estar voltando. Era o começo de uma longa jornada de recuperação. Passei por semanas intensas de fisioterapia para reaprender a falar, andar e me vestir. Depender de outros para tudo é especialmente difícil para alguém que cresceu em movimento.

Encarar a realidade após o atropelamento foi muito duro. Surgiram dúvidas sobre voltar a treinar, mas desistir nunca foi uma opção. Aos poucos, retomei os exercícios — primeiro na bicicleta ergométrica, depois na piscina — e gradualmente voltei a nadar, pedalar e correr. Atualmente, pratico um “corre e anda” que para mim é um recorde: corro intensamente por três minutos sem sentir dor. Quando completei um ano de alta hospitalar, completei um percurso de 5 quilômetros em 28 minutos, um tempo bem abaixo do profissional, mas que teve o gosto de uma medalha olímpica. Terminei exausta, dolorida, mas comemorando o fato de estar viva. Meu objetivo final é disputar provas de triatlo novamente. Dificilmente voltarei a ter o mesmo rendimento. Já dei adeus ao sonho olímpico, o que me machuca e causa revolta. Mas aprendi a respeitar meu processo de recuperação, o que também pode trazer muita satisfação pessoal.

Resta ainda lutar na Justiça. O homem irresponsável que me atropelou responde por tentativa de homicídio doloso. Reviver tudo o que aconteceu comigo em um processo judicial ainda é penoso, mas necessário. Não quero justiça só por mim — quero que outras pessoas não passem pelo que eu passei. A raiva existe, mas escolhi não carregá-la. Meu pai, com seus ensinamentos, foi essencial nesse processo. Ele sempre repete: “Filha, não pense no porquê de isso ter acontecido com você. Pensa para quê”. Hoje, meu caso inspira outros ciclistas que, infelizmente, também foram vítimas de acidentes de trânsito. Ser símbolo de força e resiliência é maior que qualquer sentimento negativo. Meu foco agora está na vida, no esporte e na família. Com isso na cabeça, procuro superar as dificuldades e seguir adiante. Um quilômetro de cada vez.

Luisa Baptista em depoimento a Júlia Sofia

Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2025, edição nº 2961

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