Fosse hoje, talvez ninguém pudesse achar graça nos textos e nos desenhos de Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, ou então soariam insossos como seu nome de batismo. Não havia preconceito que ele deixasse de alimentar — contra as minorias, todas. Defendia os abusos, todos: de álcool, cigarro e sexo. Era abusado, mesmo para um tempo em que a postura “politicamente correta” inexistia. Cartunista das revistas Senhor e Pif-Paf, e dos jornais Última Hora e Tribuna da Imprensa, em 1968 faria sucesso com seu primeiro livro, Átila, Você É Bárbaro, irônico ataque contra as barbaridades do país, cercado pela ditadura militar. Um ano depois, com Tarso de Castro e Sérgio Cabral, fundaria um semanário de humor que reinventaria o jornalismo e que duraria 22 anos, até 1991. O próprio Jaguar explicaria a gênese da publicação, porta-voz de inteligência e irreverência, apesar das grossuras de um tempo que não volta. “ ‘Que tal Pasquim?’, propus. ‘Vão nos chamar de pasquim (jornal difamador, folheto injurioso), terão de inventar outros nomes para nos xingar.’ (…) ‘Por que tabloide?’ Fizemos uma pesquisa entre os colegas do jornal e a maioria opinou que o leitor não gosta do formato. ‘Então vai ser tabloide’, decidimos”.
Como era preciso uma mascote, ele rabiscou o ratinho Sig, inspirado numa piada que corria solta diante de um chope em Ipanema: “Se Deus havia criado o sexo, Freud criou a sacanagem”. Nada escapava da ironia inigualável. Em 1970, depois de três meses preso, porque os generais não engoliam a iconoclastia do Pasquim, saiu-se com esta: “Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: ‘O que tenho para fazer hoje? Porra nenhuma!’. Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela. Consegui ler sessenta páginas de Ulisses. Depois não retomei. Ulisses ou você lê na prisão ou não lê”. Morreu em 24 de agosto, aos 93 anos, mas antes fez questão de avisar, numa das crônicas de Confesso que Bebi, lançado em 2001: “Determinei que as cinzas sejam espalhadas pelos bares em que bebi”.
O piano como manifesto
O pianista Miguel Proença dizia ter se apaixonado pelo piano ao ouvir as músicas que emanavam de uma casa vizinha à da família, na cidade gaúcha de Quaraí. Ele se tornaria um dos mais respeitados divulgadores de compositores brasileiros, como Villa-Lobos, Alberto Nepomuceno, César Guerra-Peixe e Radamés Gnattali. Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro entre 1983 e 1988, fundou a Orquestra de Câmara da Cidade do Rio de Janeiro. Chegou a dirigir a Funarte no início do governo de Jair Bolsonaro, mas seria demitido depois de defender a atriz Fernanda Montenegro contra uma série de ataques disparados por Roberto Alvim, então diretor do Centro de Artes Cênicas da instituição, que a chamara de “sórdida”. Morreu em 22 de agosto, aos 86 anos.
Publicado em VEJA de 29 de agosto de 2025, edição nº 2959